Dossiê

[DOSSIÊ] Fotografia Documental Contemporânea

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Resumo

Foto de capa: Silas de Paula

O que percebemos através dos nossos sentidos é toda a realidade que existe? Há coisas que dão origem às nossas percepções? Ou essas “coisas em si” são apenas traços de algo maior? O que as imagens técnicas, em especial a fotografia documental, têm a ver com isso?

Estas questões orientaram o dossiê temático da Revista Líbero para o segundo semestre de 2018. A proposta de reunir artigos, ensaios fotográficos, infográficos e vídeos nos possibilita pensar a respeito da fotografia documental contemporânea, pois sua exposição parece ter um caráter decididamente ritualístico. Começa em revistas e livros impactantes, plataformas digitais, ocasionalmente em jornais e se torna mais valorizada à medida que avança para galerias de arte e museus.

A cultura contemporânea está muito mais baseada naquilo que vemos do que no que lemos e é necessário avaliar o ato de ver como um produto das tensões criadas pelas imagens externas e os processos mentais internos. As imagens que nos cercam transformam não só nosso mundo e as nossas identidades, mas têm um papel cada vez mais importante na construção da nossa realidade social. O mundo está mudando e é preciso encontrar na fotografia aquele lugar que permite a liberdade e o pensamento, instâncias que surgem como acionadoras de deslocamentos estéticos e políticos, um espaço onde  possa-se caminhar no múltiplo, jogar com as hierarquias para relacionar-se com o sensível. Como disse Paul Virilio[1], todas imagens são consanguíneas e a imagem mental - a imagem virtual da consciência – não pode ser separada da imagem ocular, nem tampouco separá-la da imagem corrigida oticamente que é aquela vista através de lentes. O surgimento da técnica fotográfica reconduziu uma maneira de ver, de ser visto e é sempre bom lembrar que existe uma diferença crucial entre ver e olhar: “Olhar é o ato natural de receber nos olhos a forma e a semelhança. Já ver é considerar a imagem e a tentativa de conhecê-la bem, fazendo com que o observador constitua-se como sujeito”[2].

Cada vez mais é necessário encontrar, na fotografia, imagens que expurguem o prosaico e que mostrem o outro de maneira contundente em suas próprias representações. Em essência, as identidade emanadas não estão apenas nos corpos e nas paisagens representadas. A fotografia é sintomática na individualidade que se projeta e a imagem respira inefavelmente em nós, na nossa relação com o próprio meio que intermedia as representações. A potência da imagem é um jogo entre as configurações pressupostas e aquilo que liberta para outros possíveis, joga com a região do entre quando se permite escapar ao controle e a organizações rígidas, quando sai de esquadrinhamentos que estipulam um modo específico de produção imagética, uma postura ordenada do olhar e do fazer, um lugar que permite liberdade e pensamento, instâncias que surgem como acionadoras de deslocamentos estéticos e políticos. Na liberdade, os sujeitos podem caminhar no múltiplo, jogar com as hierarquias, brincar com o aparelho; no pensamento, a experiência estética se coloca numa zona de indeterminação, em que não se apreende o visível como um conjunto orgânico e entregue a uma interpretação, mas como uma região de probabilidades que se enrolam e se interpenetram, para formar imagens inquietas situadas menos na perspectiva de soluções e adequações que na perda e na suspensão.

Justo no que escapa, justo no que não pode ser completamente abarcado, a resistência da fotografia poderia ser formulada como esses intervalos e fissuras dentro da imagem. Pois é na impossibilidade de dar conta de um problema social – e no reconhecimento dessa limitação – que a imagem se força a pensar e a fazer pensar. A fotografia abre, assim, uma fissura, cria problemas e perturba. Ela não vai retratar uma situação de injustiça social e propor ações ou posturas de um espectador no sentido de uma reorganização suposta, mas vai instaurar quebras, sugerir e reconhecer as inquietações e deixá-las vibrar na imagem, uma operação estético-política do gesto fotográfico como instância pensante e proliferante de possibilidades para a vida. A história da fotografia é uma história de tensões e a aventura do olhar possibilita desdobramentos imprevisíveis instalando-se numa área de imponderabilidades que é, em sua constituição, o espaço da crise e do encontro crítico.

Silas de Paula, editor convidado para o dossiê.

 

[1] Virilio, P. La Imagem-Óptica. http://www.palomacatala.com/blog/?p=211. 2011

[2] Marin, L. On Representation. Stanford: Stanford Univ. Press, 2001.

 

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero 42

JUL. / DEZ. 2018 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero

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