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[Dossiê] Jornalismo e Internet: entre a falência e a inovação de modelos de produção da notícia

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Resumo

Em 2013, quando lançamos o livro As Mudanças no Mundo do Trabalho do Jornalista (em co-autoria com Roseli Fígaro e Cláudia Nonato, pesquisa realizada entre 2009-2012), abordamos questões como flexibilização, individualização e precarização de situações, contratos e relações de trabalho, como a figura do jornalista freelancer, por exemplo. Mas 2013 marca, de alguma maneira, no Brasil, a emergência de novos atores no campo profissional jornalístico, com reorganizações de processos produtivos e tecnológicos, ressignificando maneiras de produzir, consumir e pensar o jornalismo. A redação jornalística, assim como as organizações jornalísticas tradicionais, já não é o único locus há algum tempo, e essas próprias noções têm sido transformadas e tensionadas. Como afirmam Deuze e Witschge (2016), em vez de nos perguntarmos o que “é” o jornalismo, a questão é o que ele está “se tornando”.

Nesse sentido, o dossiê Jornalismo e Internet: entre a falência e a inovação de modelos de produção da notícia apresenta pesquisas que refletem, sob diversos ângulos, práticas jornalísticas contemporâneas. A Líbero recebeu um volume surpreendente de contribuições (quase 30). Após um difícil trabalho de seleção dos artigos (com a ajuda valiosa dos pareceristas), selecionamos os textos aqui publicados, além de textos que podem ser incorporados à revista em momentos futuros.

Carl-Gustav Linden, da Universidade de Helsinki, abre o dossiê indagando a respeito da relevância dos algoritmos para a produção jornalística – entre redução de postos de trabalho e novas formas de trabalho que demandem um “pensamento computacional” – a partir de um estudo de múltiplos casos em três agências de notícias. Em seguida, em mais uma contribuição internacional, Tamara Witschge (Universidade de Groningen), C. W. Anderson (Universidade de Leeds), David Domingo (Universidade Livre de Bruxelas) e Alfred Hermida (Universidade de Columbia Britânica) criticam a noção de hibridismo na pesquisa em jornalismo, principalmente em ambientes digitais. Os autores argumentam que dizer que tudo é “híbrido” e “complexo” não ajuda a desenvolver o conhecimento, e defendem abordagens experimentais para a teoria e a empiria em jornalismo.

Tecnologia e inovação são palavras-chave dos artigos subsequentes. Carlos Franciscato (UFS) aborda a tecnologia móvel como plataforma de inovação no jornalismo de cidades a partir do desenvolvimento de um aplicativo na cidade de Aracaju, Sergipe, com a finalidade de auxiliar no trabalho jornalístico no município. Por sua vez, Elizabeth Saad e Fernanda Giacomassi (USP) advogam a necessidade de pensar a inovação no campo jornalístico para além das tecnologias digitais, a partir de revisão conceitual e observação não participante, indicando que formatos e narrativas não clássicos possuem potencial de inovação no jornalismo. Em seguida, Maria Clara Aquino Bittencourt (UNISINOS) também procura revisar o conceito de inovação junto ao de empreendedorismo, indagando se as ditas “inovações” realmente inovam no campo ou são apenas reformas (sob novas embalagens), e também o quanto uma lógica seletiva de inovação pode suprimir visões alternativas de jornalismo.

O empreendedorismo também é tema do artigo seguinte, de Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS), que aborda, em uma visada crítica, os novos modelos de negócio do ponto de vista da precarização do trabalho, buscando pensar um jornalismo emancipatório a partir da apropriação de tecnologias e do cooperativismo, que busquem uma outra lógica de produzir jornalismo. Nesse mesmo sentido, os próximos textos têm por foco iniciativas jornalísticas que apresentem outros processos ou narrativas. Cláudia Nonato (FIAM-FAAM), Fernando Pachi (UNIP) e Roseli Fígaro (USP) apresentam os primeiros resultados de uma pesquisa sobre relações de comunicação e condições de produção no trabalho de jornalistas em arranjos alternativos às corporações de mídia. Enquanto isso, Mariana da Rosa Silva e Rogério Christofoletti (UFSC) analisam novas experiências jornalísticas no país e como, a partir delas, seria possível pensar em uma governança social para o jornalismo. Ambos os artigos partem do Mapa de Jornalismo Independente da Agência Pública para construção de suas amostras. Na sequência, o texto de Felipe Simão Pontes e André Packer dos Santos (UEPG) estuda seis iniciativas jornalísticas financiadas por crowdfunding no Brasil a partir da questão da divisão de atribuições entre setor comercial e redação jornalística, para compreender transformações no campo jornalístico.

Se os artigos anteriores buscam compreender a emergência de novas iniciativas e suas lógicas produtivas, os últimos textos do dossiê apresentam transformações em grupos tradicionais de mídia. Em “As máquinas não param: o jornalismo em rede na era

da convergência de redações”, Adriana Barsotti (ESPM-RJ) investiga transformações nas redações de O Globo e O Estado de S.Paulo a partir de observação participante e entrevistas em profundidade, procurando notar rupturas e descontinuidades. Já Patrícia Maurício (PUC-RJ) analisa estratégias do Grupo Globo com relação a modelos de negócio/financiamento em jornalismo a partir de entrevistas com funcionários e ex-funcionários da empresa.

Esperamos que o dossiê traga contribuições para a pesquisa em jornalismo, especialmente aquelas vinculadas às práticas jornalísticas e seus processos produtivos e tecnológicos. Boa leitura!

Prof. Dr. Rafael Grohmann, editor convidado do dossiê

editor

Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Dra. Prof. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 41

JAN. / JUN. 2018 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero

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