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E-DIASPORA CABILA: notas sobre a migração conectada contemporânea

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Resumo

Foto: iStock

*Trabalho apresentado ao GT “Comunicação e Cultura” do XXVIII Encontro Anual da Compós.

 

Os processos migratórios contemporâneos são cada vez mais modulados pelas tecnologias de comunicação e informação (Internet e dispositivos de conexão - smartphones, computadores, etc). Para analisar essas transformações dos processos migratórios, este artigo discutirá algumas feições da e-diáspora (migração conectada) cabila, povo de origem berbere da região do norte da Argélia. À luz de uma ecologia comunicativa em rede e por meio de uma perspectiva histórica, comunicativa e imersiva, analisou-se essa migração a partir do caso do portal Kabyle.com, que nos permitiu, portanto, extrair algumas considerações a respeito da migração conectada contemporânea. A feição “digital” intrínseca às diásporas atuais indica que a combinação dos elementos interagentes culturais, territoriais, tecnológicos e comunicativos transformam-se em importantes propulsores da revitalização cultural e da conexão com seus territórios, fazendo também das redes digitais novas espacialidades comunicativas e interculturais.

Palavras-Chave: Diáspora digital. Migração. Povo Cabila.

 

Introdução

Assim como em todas as esferas (afetiva, econômica, cultural, etc) da vida contemporânea, o uso intensivo dos dispositivos e das tecnologias digitais nos processos migratórios propiciou diversas mudanças, sobretudo, no planejamento, no deslocamento, na manutenção dos laços sociais no país de origem, bem como na reconstrução de vínculos e espaços de sociabilidade no país de inserção. De fato, essas interações tecnológicas e comunicativas são vetores da transformação da própria natureza da diáspora, coadunando os processos migratórios aos avanços dos processos tecnológicos comunicativos.

Diante desse contexto global, informativo e tecnológico que redimensiona os significados das diásporas contemporâneas, este artigo analisa o caso da migração conectada cabila/berbere pelo viés de uma ecologia comunicativa em rede, vinculada à expressão e-diáspora. Tal termo proposto pela socióloga franco romena Dana Diminescu (2010), evoca a equação: comunidades transnacionais = diásporas+tecnologias digitais, e nos inspira a analisar diáspora contemporânea cabila associada às novas tecnologias de comunicação e informação, sobretudo, às arquiteturas informativas interativas[1], como delineadoras de uma nova configuração ecológica comunicativa em rede da migração. Essa nova configuração resulta de um processo de digitalização pelo qual as comunidades cabilas em situação de diáspora em interação com as redes digitais ressignificam suas especificidades culturais e seus territórios (PEREIRA, 2013).  A partir do estudo da e-diáspora cabila extraímos, ao final deste texto, algumas características da migração conectada contemporânea.

Para a análise, selecionei[2] uma arquitetura informativa digital, o portal Kabyle.com, como ponto de partida para a observação e a interação privilegiada, e que pudesse extrair algumas reflexões em torno da e-diáspora cabila/berbere.  A eleição desse portal deu-se pela sua importância dentro da comunidade diaspórica cabila, principalmente a francesa. Além de imersão nos circuitos informativos do portal Kabyle.com[3], com a realização de entrevistas presenciais e on-line com pessoas da comunidade cabila na França, entre as quais, o desenvolvedor do portal, Stéphane Arrami, paralelamente, consultei a bibliografia relativa à história e à cultura desse povo, como fonte de apoio para a compreensão desse circuito informativo. Dessa interatividade entre os coletivos – pessoas e inorgânicos, hardware e software – formou-se uma composição transorgânica do campo empírico e analítico, ambiente dos processos comunicativos intersubjetivos dos encontros com essas alteridades, ocasionados dentro e fora das redes digitais.

 

Diáspora cabila na França

Durante o século XX, o termo “diáspora” originário do grego antigo (διασπορά – "dispersão”) nomeou o deslocamento forçado ou voluntário de um povo ou grupo étnico no mundo, vindo a tornar-se um campo de estudo dos processos migratórios globais e transnacionais[4] e dos estudos culturais e pós-coloniais repercutidos nas obras de Arjun Appadurai, Homi Bhabha, Gayatri Spivak, Paul Giroy e Stuart Hall, entre outros. Essa plêiade de estudiosos produziu obras fundamentais baseadas em múltiplas abordagens associadas à variedade das diásporas.

Para Michel Bruneau (2004) o estudo da diáspora presume a análise dos laços comunitários (no país atual) e da memória (do país de origem), por meio de um “espaço-rede[5]” que conecta esses polos. Tal espacialidade em rede é somente factível por meio da interação dos migrantes com as tecnologias de comunicação. Partindo desse pressuposto, busquei analisar a diáspora cabila na França por meio da incursão nesse “entre-lugar” (Bhabha, 1998) entre os laços comunitários e a memória conectada pelas redes digitais, aquilo que Diminescu (2010) chama de migração conectada, “e-diáspora”, como mencionada na introdução deste artigo.

Os cabilas são povos de origem Berbere (Imazighen - povos “berberes” no plural, Amazigh, no singular), que significa, nessa língua, “homens livres”. São oriundos da região montanhosa da Cabília, nordeste da Argélia, região densamente povoada, onde seus habitantes falam a língua berbere (tamazight) com sua variação dialetal (taqbaylit), além do árabe e do francês. A denominação “Cabila” foi designada pelos árabes mulçumanos para referir-se às inúmeras tribos da região, pertencentes ao grande grupo linguístico Amazigh. Mesmo dispersa em muitos dialetos, distinta da língua árabe, a língua berbere apresenta uma unidade gramatical (possui fonética, estrutura e sintaxe próprias), reivindicada por vários movimentos associados a esses grupos. Ao lado desse núcleo linguístico, e de suas variações, transmitido oralmente entre gerações pelos contos populares, lendas, mitos, músicas, etc., há a arte e o artesanato material, ricamente decorado, a tecelagem, artes em couro, cerâmica, joias, sem contar a arquitetura (a casa cabila[6]). Na cultura culinária, sua expressão mais elementar, o cuscuz (seksu), tornou-se um prato culinário internacionalmente conhecido (LACOSTE-DUJARDIN, 2005). Todos esses elementos característicos dão certa substancialidade a uma identidade berbere dos cabilas.

Atualmente, a população cabila total é de 5.500.000 habitantes, vivendo 3.500.000 deles na Argélia, um milhão na França e o restante em outras partes do mundo, principalmente no Canadá (LACOSTE-DUJARDIN, 2005). Segundo Lacoste-Dujardin (2005, p. 187), “A imigração cabila constitui uma elite, cabila e francesa, que, ao mesmo tempo em que milita ativamente para salvaguardar a cultura cabila em todas suas expressões e formas (língua, literatura, artes plásticas, gráficas e musicais, etc.) participa plenamente da vida cidadã.”

Ainda segundo a autora, a colonização francesa (1830-1962) produziu vários efeitos complexos, contraditórios e imprevistos, e, no caso da Cabília, ela contribuiu diretamente para a renovação cultural berbere tanto na Argélia quanto na França. Existe uma efervescência da expressão cabila entre sua juventude, presente nas associações e atividades políticas, culturais, pedagógicas (cursos de dança, língua, conferências, seminários) e festivas; também nas mídias, nos jornais, publicações, rádio, TV (Berèbe Television) e, no digital, nos sites e em várias redes sociais digitais.

Nessa direção, para a pesquisadora Karina Direche-Slimani (1997) as novas gerações de imigrantes cabilas realizam um novo fenômeno de reapropriação da cultura e da identidade berbere. Ao mesmo tempo, tal fenômeno não se contrapõe ao processo de integração à sociedade francesa, possui, assim “[...] um discurso muito valorizado sobre sua cultura de origem, ao mesmo tempo em que defende uma adequação total aos valores da 3ª República. Como se reapropriando da sua origem se propiciasse meios de maior êxito para sua integração”. Dessa forma, a imigração cabila na França constituiu, para a autora, “um campo privilegiado de expressão identitária, um espaço de trabalho cultural intenso e de luta política muito ativa”. (DIRECHE-SLIMANI, 1997, p.198, apud LACOSTE-DUJARDIN, 2006, p.97, tradução nossa)

Assim, o ‘caso cabila’ contradiz o efeito comum do processo pós-colonial, no qual os fluxos imigratórios poderiam representar algum tipo de ‘fratura colonial’ no seio da sociedade francesa ou modalidades de relações subalternas. Ao contrário, a renovação da identidade cultural cabila por essa juventude expressa um “múltiplo pertencimento étnico” (no geral, eles se autoidentificam simultaneamente cabilas, berberes e franceses e, em alguns casos, cabilas, berberes, argelinos e franceses).

Este multipertencimento representa uma situação muito própria das diásporas (Hall, 2003), não menos conflitivo, que reinscrevem suas referências identitárias decorrentes de processos tradutórios nesses espaços-redes. Certamente, essa especificidade cabila insere-se nos desdobramentos da colonização francesa na Argélia, onde a dominação e a violência imposta a esse povo deixaram marcas fortes e profundas nas relações entre os dois países e na própria imagem da imigração argelina na França[7].

O começo desse fluxo deu-se pelo incentivo dado à administração colonial para suprir uma demanda de mão de obra, ocorrendo, assim, a emigração de homens solteiros. Em 1975, as barreiras migratórias são instituídas e o governo francês permite somente o reagrupamento familiar, instituindo uma nova configuração na comunidade cabila na França. Houve também os casos de exílio de políticos e intelectuais. De lá para cá, essa população cabila e seus descendentes construíram laços comunitários associativos, com uma forte consciência identitária ligada não só à memória do seu território de origem, mas à sua presença física esporádica nessa sociedade.

Nesse tipo de diáspora, a intensa vida comunitária no país atual reinventa uma memória compartilhada, criando uma comunidade imaginada (ANDERSON, 1993), ao mesmo tempo muito atuante em seu país de origem. Essa “conexão”, a manutenção e a reinvenção dos laços associativos são possíveis pelo fator tecnológico associado às novas tecnologias da comunicação e informação. Por ser uma diáspora, sobretudo, comunitária (CHIVALLON, 2004 apud BRUNEAU, 2004), as associações imazighen e cabilas na França, aproximadamente cinquenta, segundo dados não oficiais[8], objetivam principalmente o intercâmbio cultural nas suas mais diversas expressões: musicais, festivas, literárias. Essa característica será muito marcante na configuração da e-diáspora cabila.

 

E-diáspora cabila

A especificidade cabila mostra que o próprio colonialismo produziu determinadas circunstâncias para o fortalecimento e a renovação da identidade berbere na Cabília, com a difusão da escolarização (e a apropriação da escrita na transcrição da tradição oral por parte de seus intelectuais) e com a emigração (LACOSTE-DUJARDIN, 2006). Esse campo diaspórico cabila assume novas facetas com o advento das redes sociais digitais e com as arquiteturas informativas (sites, blogs, microblogs, redes sociais, etc.). É por essa feição “digital” intrínseca às diásporas atuais que a combinação dos elementos interagentes culturais, territoriais, tecnológicos e comunicativos transformam-se em propulsores da manutenção da conexão com seus territórios, fazendo também das redes digitais novas espacialidades comunicativas, associativas e interculturais.

A relação entre mídia/tecnologias da informação e comunicação (Internet) e processos diaspóricos vem sendo analisada nos últimos anos por inúmeros estudiosos (APPADURAI, 2001; HALL, 2003; DIMINESCU, 2010, BRIGNOL, 2012, COGO E TAL, 2012 etc). Os estudos específicos sobre as culturas berberes (ALMASUDE, 1999; BOUZIDA, 1994; EL MOUNTASSIR, 2001) já sinalizam o impacto qualitativo dos dispositivos comunicativos anteriores à Internet, no desempenho do importante papel de comunicação e manutenção dos laços entre aqueles que partiram e os familiares que ficavam. Em muitos casos, as famílias impossibilitadas de escreverem cartas aos seus parentes por serem analfabetas, registravam suas mensagens com o uso de gravadores de voz, criando uma nova forma de comunicação e vínculo entre as comunidades diaspóricas. Esse foi um fenômeno comum e significativo entre as comunidades imazighen do Marrocos e da Argélia.

Se os estudos sobre os processos migratórios apontavam os traumas, as perdas, as oposições e as rupturas com seus laços originários, representando o que foi designado pelo sociólogo Abdelmalek Sayad de “dupla ausência” (o fenômeno da imigração visto pela ótica da dominação – um sujeito ausente de seu país de origem e não reconhecido, não integrado e estigmatizado no seu país atual), com o surgimento e a proliferação de tecnologias de informação e comunicação, tal interpretação merece ser ampliada. Não que não existam mais os traumas relacionados ao processo de migração, ainda mais quando motivado pela força compulsória da luta pela sobrevivência (em casos de guerras, crise econômica, etc) – caso exemplar da crise migratória na Europa - mas diante da web 2.0, das redes digitais, de uma ecologia cognitiva (LEVY, 1993), emerge com vigor o que Dana Diminescu chamou de “migração conectada” ou “e-diáspora”[9].

(...) mobilidade e conectividade constituem agora um conjunto fundamental na definição do migrante do século 21. Juntas, agem como um vetor que garante e conduz as linhas da continuidade na vida dos migrantes e nas relações que estes mantêm com seu ambiente de origem, de recepção ou percorrido. Ontem: migrar e cortar as raízes; hoje: circular e manter contato. Tal evolução parece cunhar uma nova era na história das migrações. (DIMINESCU, 2010, p. 53, tradução nossa)

Dito de outra forma, para Diminescu (2010, p.11, tradução nossa) esse migrante conectado, “se inscreve mais numa lógica de continuidade (e não de ruptura) que permite encontrar-se aqui e lá, só e juntos ao mesmo tempo, etc.”. Tal abordagem realizada pela socióloga problematiza as categorias produzidas pela sociologia das migrações nesse novo contexto da ecologia digital:

A evolução das práticas de comunicação tem certamente introduzido a mudança mais importante na vida dos migrantes, desde a simples modalidade de conversação, em que a comunicação supre a ausência, até a modalidade de conexão, em que os serviços mantêm uma forma de “presença” contínua, apesar da distância.

Mas a conectividade a qual o migrante está sujeito não é somente ligada à comunicação à distância. Ela se diversifica a medida que seu ambiente de vida e de mobilidade se digitaliza. Consequentemente, as perguntas clássicas da sociologia das migrações, tais como a travessia das fronteiras, os fluxos, a integração, as reuniões familiares, o desenvolvimento e a transferência de dinheiro, etc., veem-se revistas no novo contexto da ecologia digital (DIMINESCU, 2010, p. 15, tradução nossa.)

Este “migrante conectado” está aqui e lá, inserido em uma intensa hipermobilidade e conectividade comunicativa digital. Se a mobilidade acarreta uma continuidade espacial, compartilhamento simbólico em sua percepção de “estar com”, na diáspora “conectada” cabila há simultaneamente uma renovação do laço comunitário e da sua identidade cultural. Além da “presença conectada”, a conexão entre o território de origem e o atual, com a potencialização de sua mobilização nos metaterritórios[10], permite a essas populações migrantes conectadas a desterrritorialização e a reterritorialização em espaços “outros”, correspondendo à pluralização de suas localidades.

Essa e-diáspora constitui-se também pelas novas possibilidades de registro e proliferação do rico patrimônio cultural desses povos, reintroduzindo dinâmicas ligadas às tecnologias de comunicação e informação, que pouco se ajustam ao sentimento de perda “cultural”, relegado à ideia do ‘tradicional’ como depósito nostálgico de um passado puro, autêntico e incontaminado. Ao contrário, os atores-redes[11] cabilas diaspóricos e conectados estão associados na contingência das interações com os dispositivos técnicos. Lançam, assim, possibilidades de différance (Hall, 2003), retraduções e reelaboração de seus repertórios culturais, efetivando novas significações sobre o devir da cultura amazigh e cabila (Almasude, 1999).

Por sua interação com as tecnologias digitais, a e-diáspora conseguiu promover a internacionalização da questão da cultura Imazighen e o reconhecimento dessas identidades por parte de alguns estados nacionais (no caso do Marrocos e da Argélia). A questão da cultura Amazigh vem sendo reivindicada dentro dos espaços políticos na Argélia, mas, sobretudo, naquela espacialidade comunicativa digital sem a qual a cultura, a língua e todo seu patrimônio seriam ainda invisíveis e estariam destituídos da possibilidade de novas interações interculturais.

 

Nos circuitos da e-diáspora: o portal “kabyle.com”

Criado em 1997 por uma equipe de profissionais da comunicação cabila na França, depois editado pela Association Kabyle-France-Internacional (AKFI)[12], tornou-se o principal portal de informação cabila e berbere em tempo real. Representa também a principal arquitetura de informação da diáspora cabila no mundo, conectando suas comunidades dentro e fora da Cabília. Por ser um portal informativo atualizado e interativo, o conteúdo segue essa mesma dinâmica, correspondente aos acontecimentos mais evidentes e à participação dos internautas.

Nesse sentido, o portal Kabyle.com responde à conectividade realizada pelas pessoas que queiram participar desse debate, os temas publicados obviamente são aqueles que interessam e repercutem na comunidade cabila no mundo e na própria Cabília.

O portal foi criado por Stéphane Arrami como Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação no Institut de la Communication – Université Lumière Lyon 2, em 1997, nos primeiros anos da Internet. Stéphane Arrami é um importante ator-rede da e-diáspora cabila na França. Idealizador do portal, reúne em sua atuação dois elementos marcantes, uma formação em desenvolvimento de sites e um perfil empreendedor na área de comunicação.

Seu interesse em divulgar a cultura berbere veio da pesquisa de suas raízes familiares cabila aos 14 anos, quando morava em Tunis (Tunísia)[13]. Enquanto morou lá, dos seis aos dezenove anos, produziu um jornal junto com um amigo tunisino-russo ligado ao club Jeunes la Presse. Segundo ele, para além de uma ligação sentimental com a Cabília, sempre sonhou em montar uma empresa de comunicação associada a um empreendimento cultural. A ideia do portal surgiu no intuito de transferir e continuar, nessa arquitetura informativa digital, o boletim cultural associativo berbere impresso em que trabalhava.

No início, o Portal foi hospedado no Webcity.fr[14]. Segundo Stephane Arrami, essa hospedagem lhe permitiu “fundá-lo sob bases” sólidas. Apoiando-se em sua pequena rede constituída por uma rádio local cabila em Lyon e pelo Congrès Mondial Amazigh[15], eles puderam construir uma arquitetura informativa base: um chat (bate-papo)[16], páginas onde se poderia encontrar pela primeira vez um calendário berbere com fotos exclusivas de personalidades, informações, músicas cabilas traduzidas e entrevistas. À época, havia pouca informação da Cabília. Depois do assassinato do cantor cabila Lounes Matoub (25 de junho de 1998), as entrevistas realizadas com o partido Rassemblement pour la culture et la démocratie (RCD) e com outros grupos políticos da Cabília e personalidades (como o jogador Zidane, de origem berbere), e as reportagens sobre os grupos de solidariedade com a Cabília, o portal foi reconhecido pela primeira vez como site da diáspora cabila.

Para Arrami, o portal tem essa premissa de manter a ligação com o mundo francofônico, cabila, berbere, laico, aberto aos debates e à reflexão sobre a cultura e política cabila-berbere. A meta, desde o início, que ainda não se cumpriu, segundo ele, é de o Portal se tornar um grande centro de informações com seus escritórios, antenas, em muitas cidades da África do Norte, cobrindo todos os países do Magrebe.

Nos últimos anos, ele e sua equipe vêm trabalhando persistentemente para isso. Desde 2003 o Portal é uma Société à responsabilité limitée (SARL), ou seja, uma empresa registrada. Sem apoios institucionais (públicos ou privados)[17], conseguem manter o portal com a venda de espaço publicitário e de CD’s, livros e outros produtos, presentes na loja virtual (que gera um lucro aproximado de mil euros anual). Segundo Arrami, as despesas com taxas de hospedagem e de manutenção do portal são de aproximadamente 3.500 euros por ano. Não há lucros, mas ele acredita que no futuro possam adquirir uma autonomia que cubra as despesas dos correspondentes nas regiões do Magrebe, multiplicando o espaço publicitário e inaugurando uma WebTV, sendo uma plataforma mista, com lógicas comerciais e open source.

A rede de redatores é descentralizada, localizada em várias cidades na França e na Cabília. A equipe é recrutada também via Portal, por isso, as mudanças constantes em seus colaboradores. Qualquer um pode publicar matérias, desde que estas sejam aprovadas pelo comitê de redação (há uma revisão entre pares). São remunerados somente os correspondentes na Cabília, em média paga-se quinze a vinte euros por matéria, e dez euros por uma nota breve, o restante do grupo é voluntário. Em média, cada membro da rede de redatores publica duas matérias por mês.

As informações obtidas localmente são a diferença do Portal, que divulga fatos ocorridos na região da Cabília por meio de correspondentes diretos, uma maneira de atrair novos usuários e internautas da diáspora que busquem informações específicas sobre a região, sem o filtro feito pelos jornais argelinos. Outras arquiteturas informativas foram agregadas ao Portal, como o feed RSS[18], Twitter[19], Youtube e Facebook, tendo este último se tornado um campo de prospecção de matérias a serem publicadas, com base na rede cabila/berbere existente nessa rede social. A página do Kabyle.com no Facebook serve também para divulgar as novas matérias postadas. Assim, a interface do portal com o Facebook e o Twitter ajuda a irradiar as matérias e notícias atualizadas.

Se essa equipe editorial descentralizada e colaborativa pareceu-me uma forma ideal de se trabalhar em e na rede e, sendo possível assim fazê-lo pelos inúmeros aparatos comunicativos digitais (e-mail, Skype, Facebook, etc.)[20], o processo de publicação no site ocorre também de forma a se buscar um consenso entre a equipe. Em relação ao processo de elaboração das matérias, há um padrão em toda notícia divulgada – apuração das fontes e cobertura de eventos in loco – e uma busca de publicação de matérias inéditas.

Toda a semana eles fazem um ponto da situação, a partir dos temas já publicados e mais relevantes, estabelecendo uma pauta mínima, mas nem sempre seguida, fazendo com que eles noticiem os acontecimentos em voga. Segue um padrão editorial, que Arrami traduz por uma “linha humanista e militante”, voltada à “libertação espiritual e territorial” da Tamazgha (um neologismo criado pelos militantes berberes que descreve os países onde se falam a língua tamazigh – berbere) e da Cabília.

Certamente, as questões mais controversas enfrentadas pela equipe editorial são aquelas que remetem ao conflito com os grupos islâmicos radicais e à criação de um estado autônomo berbere na Cabília. A visão deles, segundo Arrami, não é de estimular esse tipo de conflito recíproco (entre os islamistas radicais e os laicos), mas de optar por uma visão mais humanista, claramente favorável a laicidade cabila e multicultural.

Durante a pesquisa observei, nessa arquitetura informativa, que a defesa de uma posição laica é compartilhada pela maioria dos internautas participantes do Fórum e dos comentários no site, mas a autonomia política da região é uma temática polêmica que se manifesta nos inúmeros comentários dos participantes. Obviamente, essa posição advém de uma histórica simpatia por esses valores na comunidade diaspórica cabila, mesmo que a autonomia seja um tema mais delicado que a laicidade. Contudo, ambas ocasionam momentos de tensão e violência na Cabília entre os árabes muçulmanos argelinos. De certo, a reivindicação de uma especificidade cultural berbere e a invenção de símbolos para demarcar essa tradição comum aos povos do Magrebe, como a bandeira Amazigh, vetor de uma recriação e reestruturação de imagens do passado comum (HOBSBAWM, 1984), elementos culturais presentes entre estes povos, como a língua, provoca a atenção dos estados nacionais nos quais esses povos berberes se situam. Suas diferenças culturais geram conflitos políticos, principalmente se essa reivindicação cultural e linguística vier acompanhada da territorial[21], a exemplo do território Azawad em Mali e da própria Cabília.

Para Arrami, o portal vem mudando a percepção da cultura cabila no seio da sua própria comunidade ao dar visibilidade a seus acontecimentos. Embora nem sempre, nessa comunidade, ocorra a unanimidade de opiniões na abordagem dos assuntos. Ele acredita que a geração de jovens cabilas, mesmo que compartilhando multipertenciamentos, precisa desconstruir os códigos de uma cultura marginal, distorcida pelos estereótipos do “beur” (nome dado aos filhos de argelinos na França) presentes e atuantes na sociedade francesa. A mudança de perspectiva passa pelas interações com as novas tecnologias, a apropriação do “código”, a difusão de vídeos, imagens, e a adoção de agências de comunicação próprias para que se faça esse tipo de ação nas redes digitais de forma profissional, autossustentável e duradoura. Para ele, tal ação comunicativa reticular é cotidiana, capaz de pluralizar cada vez mais as linguagens midiáticas a partir dos seus próprios códigos culturais (a língua tamazigh).

Além das questões políticas, no portal outros assuntos das associações comunitárias cabilas na França se sobressaem: a língua (há um dicionário online do idioma), informações sobre legendas de filmes no idioma, as apresentações musicais, de dança e poesia. A e-diáspora cabila resplandece também na emergência da ressignificação do patrimônio cultural cabila/berbere e em sua nova espacialidade “conectada” e móvel. A combinação entre cultura (performatização de suas identidades e memória), mídias digitais e territórios promove uma vívida reelaboração do local digital, ampliando e reinventando formas culturais relacionadas às suas comunidades. O local digital cabila da e-diáspora possui a densidade da sua trajetória histórica, traz em suas vicissitudes sua forte tradição oral (das músicas à poesia), sua conflitualidade política (principalmente com os árabes na Argélia) e sua identificação e solidariedade com os povos transnacionais Imazighen (PEREIRA, 2013).

Nessa perspectiva, a “rede de redes” do Kabyle.com, como expressão da e-diáspora cabila, constitui-se pelos seus diversos planos: a rede de redatores, os circuitos das outras arquiteturas informativas digitais (Twitter, Facebook, e-mails, etc.), as redes de internautas que participam do Portal, além do território em que atravessam esses circuitos: as montanhas de Djurdjura da região da Cabília, o mar mediterrâneo, o oceano Atlântico, entre outros ecossistemas vivos integrantes e interagentes dessa ecologia.

 

A migração conectada contemporânea: considerações iniciais

Desse percurso da e-diáspora cabila, podemos aqui tecer algumas considerações parciais a respeito dos processos migratórios no contexto da generalização da comunicação digital, e às implicações a ela associadas, e no modo de produzir conhecimento sobre tais fenômenos.

De modo pontual enumero a seguir alguns aspectos correspectivos às múltiplas feições das diásporas contemporâneas e aos estudos desses processos:

  1. Os estudos dos processos migratórios contemporâneos não podem ignorar os processos tecnológicos e comunicativos que são constitutivos das diásporas atuais. Assim como as razões dramáticas e traumáticas das migrações, sobretudo, àquelas motivadas pelas guerras e pela violência, continuam a forçar a mobilização de muitos povos no planeta, é igualmente válido considerar que o êxito dessas mobilizações ocorre pelo acesso às tecnologias de comunicação (associada às políticas sociais de educação, trabalho etc). A tradução inequívoca do “êxito” é a chegada em segurança ao local de destino, a permanência, a integração à sociedade de recepção e a manutenção dos laços com o país de origem.

Nessa direção, Liliane Dutra Brignol (2012) enumera dez aspectos principais da importância das tecnologias de informação e comunicação para as migrações, desde a apropriação dessas tecnologias à adoção de estratégicas para o exercício da cidadania: 1) projeto de migração; 2) famílias e relações transacionais; 3) vínculos informativos com país de nascimento; 4) consumo e produção cultural; 5) aprendizado do idioma; 6) cidadania jurídica; 7) usos de mídias de migração; 8) companhia e ócio; 9); participação política; e 10) associativismo. Tais aspectos delineiam a conformação em rede das diásporas (BRUNEAU, 2004; COGO, 2012; BRIGNOL, 2012, etc).  Igualmente válido considerar que o sentido de “espaço” e as distâncias do território original são, de fato, alteradas pelos aplicativos e sistemas de comunicação digitais. Como já mencionado por Diminescu (2010), a natureza da migração contemporânea muda profundamente com as tecnologias de conexão e mobilidade.  Essa hiperconectividade não significa o fim dos conflitos inerentes aos processos diaspóricos e de toda a sorte de sentimentos relacionados aos deslocamentos (sejam forçados ou voluntários).

  1. Nos últimos anos, encontram-se em plena efervescência os estudos dos fenômenos migratórios pelo viés dos usos das tecnologias de informação e comunicação pelos imigrantes na construção de espaços e cidadanias transnacionais. No entanto, o estudo do “uso” das “mídias” reduz essa qualitativa transformação comunicativa e tecnológica à uma funcionalidade instrumental das mídias, o que limita, em muito, a compreensão de um fenômeno complexo, multi-situado e em rede (entre humanos e não).
  2. Por ser um fenômeno contemporâneo imbricado pelos processos históricos e, por sua vez, informativos, o estudo dos processos migratórios exige mais que a análise das arquiteturas informativas (sites, blogs, redes sociais digitais, etc). Portanto, é um campo que requer estudos multidisciplinares e interseccionais para que dele possamos compreender as dinâmicas interativas e conectivas do fenômeno migratório. Outro aspecto a ser considerado é que toda e qualquer arquitetura interativa de informação é efêmera, e de uma hora para outra o “campo” se esvai. Essa é lógica da própria rede, embora possamos, em certa medida, com uso de softwares específicos, traçar os rastros das associações (no sentido de Latour) e visualizar seus laços. Os resultados dessas pesquisas são situados num determinado tempo dos acontecimentos, sendo, portanto, estudos “perspectivos” e “parciais”.
  3. O estudo dos processos migratórios pelo viés da “migração conectada” (e-diáspora) não equivale a chamada “webdiáspora” (SCOPISI, 2009; MATTERLART, 2009, ELHAJJI E ESCUDERO, 2016). Em primeiro lugar, não são intercambiáveis os termos “Internet” e “Web”. A “Web” é um dos meios de acesso à Internet, e é baseada no protocolo http para transferência de informação, o que depende de browsers para a navegação. As redes sociais mais populares (Facebook, Twitter, Instagram) são acessadas, sobretudo, via smartphones através de aplicativos (não via Web), assim como os aplicativos de trocas de mensagens instantâneas (WhatsApp), largamente utilizados pelas comunidades em situação de diáspora.

Dessa forma, o termo “webdiáspora” adequa-se mais ao estudo de sites produzidos por migrantes (SCOPISI, 2009), embora reduza o fenômeno a uma “prática midiática” (uso instrumental e análise de conteúdos) ou a um “espaço de reordenamento de experiências e práticas sociais e subjetivas dos imigrantes e comunidades diaspóricas” (ELHAJJI E ESCUDERO, 2016, p.). Sendo que a experiência conectiva das comunidades transnacionais e diaspóricas por meio dos dispositivos de mobilidade parece indicar uma nova condição do habitar: ecológica, comunicativa e atópica (DI FELICE, 2009). Nessa leitura, o espaço não é “reordenado”, mas muda a sua conformação de modo radical pela conectividade e ubiquidade dos fluxos comunicativos. Um processo complexo de transformação do social –  que não pode ser isolado pelas interações exclusivamente humanas –, e que se traduz, sobretudo, em uma mudança de percepção da localidade por meio da simbiose entre humanos, tecnologia e território, que segundo Massimo Di Felice (2009) “uma vez que a se digitalizar e a se constituir em redes, não são apenas os fluxos informativos trocados entre os humanos, mas o contexto inteiro [...] o território e o meio ambiente, criando, dessa forma, um processo reticular deslocativo e ecossistêmico, cuja análise ainda deve ser considerada”. (DI FELICE e tal, 2012, p. 17).

Chamamos esse fenômeno de “local digital das culturas” (PEREIRA, 2013), as interações emergentes produzidas pela combinação da performance das identificações culturais e dos processos de diferenciação e visibilidade com as arquiteturas informativas digitais (as produções midiáticas desses grupos, como sites, blogs, etc.) delineando um novo tipo de espacialidade. Isso nos reporta a uma nova ecologia promovida pela digitalização, imbricada nos agenciamentos técnicos, nas interfaces digitais, nas transformações técnicas (sociais) e humanas recíprocas.

A digitalização permite a passagem da cópia à modulação. Não haveria mais dispositivos de “recepção”, mas sim interfaces para a seleção, a recomposição e a interação. Os agenciamentos técnicos passariam a assemelhar-se com os módulos sensoriais humanos que, da mesma forma, também não “recebem”, mas filtram, selecionam, interpretam e recompõem.

[...] Uma infinidade de circuitos informativos, pessoais, pertencendo à oralidade arcaica, continuará a irrigar as profundezas da coletividade. Ainda que processada por novos métodos, uma grande parte da herança cultural continuará. [...]

Mas os dispositivos materiais em si, separados da reserva local de subjetividade que os secreta e os reinterpreta permanentemente, não indicam absolutamente nenhuma direção para a aventura coletiva. Para isto são necessários os grandes conflitos e os projetos que aos atores sociais animam. Nada de bom será feito sem o envolvimento apaixonado de indivíduos.

[...] As técnicas agem, portanto, diretamente sobre a ecologia cognitiva, na medida em que transforma a configuração da rede metassocial em que cimentam novos agenciamentos entre humanos e multiplicidades naturais [...]. (LÉVY, 1993, p. 130-131)

 

Como vimos no caso cabila, essa combinação heterogênea dos agenciamentos técnicos, dos circuitos informativos digitais e de suas modulações, da atuação desses atores-redes cabilas em seus conflitos, da ecologia cognitiva dessa coletividade humana e não humana, estão no âmago dessa e-diáspora.

  1. De fato, é cada vez mais desafiante para o pesquisador acessar esses espaços-redes diaspóricos, porque eles são muitas vezes invisíveis. As trocas e interações entre comunidades estão ocorrendo cada vez mais intensamente pelos aplicativos (WhatsApp, grupos fechados no Facebook, etc), que exige dos pesquisadores o seu reposicionamento e a construção de laços de confiança no ingresso dos circuitos informativos.
  2. A noção de “circuito” de pesquisa contribui para iluminar algumas questões epistemológicas trazidas por esse fenômeno diaspórico conectado, fluído e dinâmico. Assim, também podem contribuir os estudos das redes de relações (não só humanas) que implicam em perspectivas multi-situadas, em contextos, posições, escalas e compatibilidades (STRATHERN, 1991). A noção de circuito nos permite refletir a inserção do observador (pesquisador) nos sistemas interagentes, suas conexões e trajetória formadoras de uma paisagem móvel da pesquisa. De acordo com Mariana Marchesi (2012), em sua apropriação do “sistema circuital” de Gregory Bateson, a pesquisadora opera a substituição da terminologia "objeto" de pesquisa por "circuito" de pesquisa, considerando: “1. a concepção de sistema circuital, de Gregory Bateson, como um sistema interagente do qual o observador também é parte integrante; 2. os significados tecnológicos implicados na palavra circuito, associada com frequência não só à eletricidade (circuitos elétricos, curto-circuito, circuitos eletrônicos), mas também à infraestrutura técnica digital (circuitos eletrônicos de base binária, chips, placas e microprocessadores); 3. a possibilidade de entendimento da palavra circuito também como "caminho", "percurso"” (MARCHESI, 2012, p. 72). Tomando por base essa reflexão, ao mesmo tempo que o pesquisador constrói uma trajetória de “navegação/interação” nos circuitos imersivos das redes digitais constrói-se também um campo de análise (e não um “objeto” em separado) das conexões, interações e deslocamentos nas arquiteturas informativas, condutoras dos fluxos informativos, os quais formam conjuntamente uma paisagem ubíqua e deslocativa da pesquisa. Igualmente o que antes se prestavam ao léxico antropológico do “informante” ora se põe como “atores-redes” (conectores e) interlocutores das experiências a serem estudadas.

Finalmente, essas questões pontuais não esgotam o estudo do fenômeno dos processos migratórios contemporâneos. Pela e-diáspora cabila pudemos vislumbrar processos de identificação e performatização das suas identidades culturais que passam a existir nas redes digitais (no caso no Portal Kabyle.com), apontando para modos cada vez mais híbridos, tradutórios e relacionais de suas tradições (de seus repertórios de significados). As transformações (e também as permanências) de seus códigos reintegram novas modalidades de estar no mundo, novos devires, permeado pelas ressignificações advindas de uma combinação simbiôntica entre culturas, redes digitais e territórios, delineadas nas espacialidades comunicativas digitais e conectivas.

 

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[1] Sites, blogs, perfis em redes sociais (Facebook, Twitter, entre outros).

[2] Será recorrente neste artigo o uso da primeira pessoa do singular como marcador da subjetividade do autor.

[3] Parte dessa análise compõe a minha tese de doutorado “O local digital das culturas: as interações entre culturas, mídias digitais e território” (ECA/USP, 2013). A imersão no site Kabyle.com ocorreu durante quatro meses em 2012 e novamente nesses últimos meses de 2018. Embora algumas modificações no layout durante esse arco de tempo, verificou-se uma longevidade do site criado em 1997.

[4] Os processos migratórios transnacionais decorrem dos processos globais que, ultrapassando as fronteiras nacionais, delineiam espaços transfronteiriços, tanto situados entre os espaços de origem quanto os de acolhida.

[5] Convém lembrar que os estudos das redes sociais nas ciências sociais nascem das pesquisas dos fluxos migratórios na África realizados pela conhecida “Escola de Manchester”, liderada pelo antropólogo britânico Max Gluckman.

[6] Pierre Bourdieu (1999) produziu um famoso ensaio sobre a casa cabila, baseado em sua pesquisa etnográfica na região, pelo qual refere-se à organização simbólica do espaço, às relações de parentesco e às práticas da comensalidade.

[7] No geral, os argelinos são vistos pela sociedade francesa como “árabes”, os próprios cabilas são invisibilizados por esse termo. Tal imagem estigmatizada não está desvencilhada de um rancor oriundo do conflito pela independência. Na literatura sobre a diáspora cabila na França, costuma-se referir-se à percepção francesa sobre eles como distinta da sobre os argelinos. Essa “diferença” decorre da identificação dessa comunidade com os valores laicos e republicanos franceses.

[8] Tive acesso a uma lista de 45 associações ou grupos imazighen na França por meio de Ângela Collado, pesquisadora da cultura amazigh no Marrocos. Durante a pesquisa, encontrei outras cinco associações por meio das redes digitais, entretanto, não consegui localizar dados oficiais sobre essas organizações (quantos e quem são).

[9] “E-diáspora” nomeia também o projeto coletivo coordenado por Diminescu, integrado à Fondation Maison Sciences de L’Homme, no Grupo TIC/Migrations, objetivando construir arquivos Web sobre imigração e inovar as ferramentas metodológicas de pesquisa – as conceituais, como a transição da mobilidade, a conectividade e tracibilidade; e as metodológicas propriamente ditas, como o uso de softwares, serviços móveis e de mobilidade espacial, além do estudo etnográfico do comportamento de mobilidade e comunicação. Para mais informações ver: http://www.e-diaspora.fr.

[10] Referimo-nos à essa nova espacialidade informativa em consonância às formas comunicativas do Habitar atópico, oriundas das relações entre humanos, tecnologias e territórios (DI FELICE e tal, 2012; DI FELICE, 2009).

[11] A noção “ator-rede” se refere àquela elaborada por Bruno Latour (2012), sendo tudo aquilo e aquele que age na rede, humano ou não humano.

[12] A associação inscreve sua atuação no campo intercultural, socioeducativo e cidadã, com o objetivo de favorecer, na França e no exterior, o reconhecimento da cultura e da língua cabila/berbere nas novas tecnologias de informação na mídia cabila e no site Kabyle.com. O interessante é que essa Associação nasce depois do portal, assumindo, assim, a divulgação da cultura cabila nas novas tecnologias comunicativas como uma estratégia principal.

[13] Após a “Insurreição de 1871”, na Cabília, contra a colonização francesa na Argélia, as terras de muitas famílias foram confiscadas pelo exército francês, levando a um grande êxodo de tribos cabilas para a Tunísia.

[14] Webcity.fr, na época, era um provedor de hospedagem, onde Stephane Arrami trabalhou na sua fase embrionária.

[15] O Congrès mondial amazigh (CMA), criado em 1995, é uma organização internacional não governamental independente de governos ou partidos políticos, que reagrupa associações socioculturais e de desenvolvimento imazighen. Com o objetivo de defender e promover os direitos, os interesses políticos, econômicos, sociais, culturais e linguísticos da nação amazigh internacionalmente. Ver site: http://www.congres-mondial-amazigh.org/-/index.php.

[16] Logo em seus primeiros anos, o bate-papo foi desativado por inatividade. As pessoas preferiam participar dos fóruns, segundo Arrami. Em 2012, os fóruns eram muito ativo, atualmente registra-se pouca participação.

[17] Algumas associações berbere-cabilas apoiam “moralmente”. Na Cabília, uma empresa aparecer no Portal pode constituir um risco econômico (por causa do conflito com os árabes-argelinos), paradoxalmente, a divulgar notícias da Cabília lhes oferece mais possibilidade de se diferenciarem de outros sites. Isso faz com que eles tenham novos internautas e usuários, aumentando a atração de investidores para pagar pela publicidade no portal. Não existe a modalidade “notícia paga”, eles buscam manter uma independência que lhes dê credibilidade entre a comunidade berbere-cabila.

[18] Feed RSS é um serviço que informa ao usuário inscrito as novas atualizações do site.

[19] A conta do Kabyle.com no Twitter foi considerada, em 2012, uma das trinta mais influentes na Argélia.

[20] Por causa dos problemas com a conexão na Cabília, os correspondentes de lá enviam as matérias por e-mail, em seguida postadas no Portal. O restante da equipe de redação publica diretamente, valendo-se de suas plataformas de atualização do Drupal.

[21] Na Cabília, essa questão é tão controversa que não chega adquirir uma adesão maior da população envolvida. Contudo, na região de Azawad (Mali), declarada em março de 2012 território autônomo pelo movimento separatista (Mouvement National pour la Liberatión de l’Azawad – MNLA), a população Touareg está completamente envolvida com a criação de um Estado Independente, que gerou conflitos não só com o governo do Mali, apoiado pela França, mas com os grupos islâmicos extremistas na região.

 

Autora

ELIETE DA SILVA PEREIRA
Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, Brasil.
Professora Doutora da UEMG.
E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 44

JUL. / DEZ. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

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