Dossiê

Foram os aliens: comunicação de massa e verdade

editor

  • Português
  • English
  • Español

Resumo

The paper discusses the problem of truth production in contemporary society, taking as a case study the episode Dispositivos Secretos of the TV Show Alienígenas do Passado. It discusses the status of the truth and its relation to today's forms of belief production and after that analyzes the TV show. The conclusion delineates modes of foundation of truth that mimic discourses logically structured without being so. Keywords: Truth. Proof. Mass Communication. Rationality.

Resumen: El artículo analiza la cuestión de las estrategias de producción de la verdad en la sociedad contemporánea, tomando como objeto de estudio un producto de la comunicación masiva: Los dispositivos secretos episodio del programa Alienígenas del pasado. Se discute el estatuto de la verdad y su relación con las formas de producción de creencias en la actualidad, tras el análisis del material de los medios de comunicación. La conclusión apunta a formas de razonamiento de la verdad que imitan los discursos lógicamente estructurados sin serlo. Palabras clave: Verdad. Prueba. Comunicación masiva. Racionalidad.

Foto: Reprodução

*Trabalho apresentado ao GT “Comunicação e Cultura” do XXVIII Encontro Anual da Compós.

 

O artigo aborda a questão das estratégias de produção de verdade na sociedade contemporânea, tomando como objeto de estudo um produto da comunicação de massa: o episódio Dispositivos Secretos do programa Alienígenas do Passado. É feita uma discussão do estatuto da verdade e de sua relação com as formas de produção de crença hoje, ao que se segue a análise do material midiático. A conclusão aponta para modos de fundamentação da verdade que mimetizam discursos logicamente estruturados sem o sê-lo.

Palavras-Chave: Verdade. Comprovação. Comunicação de Massa. Racionalidade.

 

A verdade em crise e a verdade dependente

Primeiro ponto: vivemos um momento de instabilidade social da verdade, o que se evidencia pela tematização constante das falsas notícias, pelas campanhas de veículos de mídia impressa em sua própria defesa e contra as inverdades da mídia social, pelo retorno de crenças fundamentalistas as mais variadas (contrárias à teoria da evolução, à vacinação, a favor da ideia de que a terra é plana, de que a humanidade jamais pês os pés na lua, entre outras), pelo uso massivo do digital como instrumento de desinformação política etc. Uma tal atmosfera cultural pode levar facilmente a que se fabule um passado melhor, em que a verdade era certa, em que a crise não a assombrava, em que a humanidade tinha suas certezas e por elas se guiava na plenitude de sua consciência racional. Contra essa fabulação retroativa, a verdade parece sempre ter estado em crise, os momentos de maior estabilidade sendo antes exceções evanescentes do que regra geral. Claro que localmente, em espaços culturais restritos (aleatoriamente citamos: a doutrina cristã do casamento, a filosofia kantiana e sua salvação de uma objetividade subjetiva, a ideologia iluminista), vigoraram de modo forte verdades mais ou menos dominantes, mas isso de modo algum significa que eram hegemônicas e que totalizavam sob sua égide o corpo social por inteiro (contra as doutrinas cristãs do casamento, as práticas concretas das diversas classes sociais; contra Kant, as condições de vida do povo nas emergentes cidades modernas lançavam às favas as preocupações epistemológicas; contra o iluminismo, as práticas violentas e irracionais da França pós 1789).

Mais profundamente, a verdade sempre ou esteve em crise ou estava em vias de entrar em crise, cumprindo um interregno de calma e tranquilidade. Sem ir muito longe, o surgimento mesmo da filosofia, toda a sua história, a história das religiões na Era Comum, o Renascimento, a ciência moderna, toda a mudança epistemológica no universo científico cristalizada no século XX são figuras de verdades em constante reconfiguração, reconfiguração essa impossível sem uma instabilidade de fundo.

Segundo ponto: diversos autores, cada um a seu modo, abordaram o tema da relatividade da verdade. Trata-se, globalmente, de sustentar que a verdade depende de algo que lhe é exterior, sendo este algo de alguma forma condicionante. A verdade, assim, seria relativa a alguma coisa, no sentido de depender dessa alguma coisa para se constituir e existir. Em oposição à tese da verdade absoluta, que de nada depende, a ideia de que a verdade é relativa, de que a verdade é dependente. Podemos citar, sem a pretensão de exaustividade, Kuhn (2001), Foucault (2002), Feyerabend (2007), Veyne (1984), Viveiros de Castro (2015), Deleuze e Guattari (1992).

Kuhn, por exemplo, sustenta que todas as verdades dependem dos paradigmas que as condicionam; que não existe verdade absoluta; que a ciência existe ou como ciência normal (verdade bem adaptada ao paradigma vigente) ou como revolução científica (mudança de paradigma e portanto do que se considera como verdadeiro), o que configura dois modos de mudança no universo da ciência, a evolução cumulativa da ciência normal e a revolução científica, ambos supondo, em sua própria essência, o tempo e a mudança; que a ciência é fecundada, fundamentalmente, por suas crises, sendo morta uma ciência perenemente normal.

A verdade se configura, a partir desses dois pontos, como dependente e constantemente atravessada por crises, maiores ou menores. Verdade junkie.

 

Convencer sempre

Terceiro ponto: sempre mais ou menos em crise, ameaçadas, as verdades procuram, como tudo o que existe, a acreditar em Espinosa (Spinoza, 1949), perseverar em seu ser. Para perseverarem, precisam ser, nesse sentido, persuasivas, convincentes. Todas as verdades, religiosas, científicas, filosóficas, jornalísticas, pessoais etc, desse modo, envolvem máquinas, individuais ou coletivas, de convencimento as mais variadas, desde rituais mágicos em religiões selvagens até o rigor demonstrativo matemático que tanto obsedava o citado Espinosa. As verdades como junkies marqueteiras.

Um deslocamento epistemológico interessante se desenha então: em lugar de perguntar o que é a verdade, pergunta clássica, que vai receber potencialmente tantas respostas quantos são os que perguntam, indagamos aqui quais são as estratégias de convencimento que as verdades mobilizam, que mecanismos de persuasão põem em jogo. Considerando que somos nós os sujeitos que as verdades procuram convencer, perguntar pelo modo como para tal agem é um primeiro passo para a questão mais profunda que é por que acreditamos no que acreditamos?

Quarto ponto: as verdades sempre se apresentam em alguma matéria. A filosofia de Platão, considerada aqui como uma verdade entre outras que procura se impor, existia nas aulas e falas de Platão, nas obras escritas que deixou. Para nós, contemporâneos, Platão ou as verdades platônicas existem apenas na medida em que objetos materiais comportando esses ensinamentos chegam até nós.

Há portanto todo um universo da materialidade da verdade que deve ser levado em conta para a compreensão de sua existência social. Pense-se, por exemplo, nas discussões em torno do papel da prensa (máquina de produção material de textos) para a criação da ciência moderna (Eisenstein, 1998) ou da escrita alfabética no pensamento de Platão e na filosofia (Havelock, 1996) como formas de exploração desse universo da materialidade da verdade.

Retomemos aqui uma definição do bibliógrafo (ou sociólogo dos textos) D. F. McKenzie que pode ser útil:

Eu defino “textos” de modo a incluir informação verbal, visual, oral e numérica, na forma de mapas, impressos e música, de arquivos de som gravado, de filmes, vídeos e qualquer informação guardada em computador, tudo, de fato, da epigrafia até as últimas formas de discografia (2004, p. 13. Tradução nossa).

Essa definição de texto, que adotamos doravante no presente trabalho, nos permite sustentar a ideia de que as verdades sempre se apresentam em textos, em algum tipo de texto, e sem os textos não teríamos acesso a verdades. Não sendo nosso objetivo aqui discutir se os textos esgotam a existência da verdade, restringimos nossa análise aos textos que apresentam verdades.

Quinto ponto, amarrando os anteriores: cada texto, com as respectivas verdades que comporta, é composto de, mobiliza e põe em ação instrumentos de persuasão e convencimento que visam convencer o leitor da veracidade das verdades apresentadas. Em termos duros: um texto é uma máquina que procura fazer com que seu leitor creia nas verdades que o compõem.

Vamos investigar, portanto, de que modos textos apresentam garantias para suas verdades.

 

O caminho se bifurca

A definição de textos acima proposta é, como se viu, ampla. Tal amplitude é, em nossa perspectiva, uma vantagem, pois permite que sejam submetidos a nosso escrutínio os mais variados produtos comunicacionais com vistas ao estabelecimento dos modos como procuram garantir as verdades que sustentam.

Destacamos aqui, obviamente sem a pretensão de exaustividade, dois caminhos possíveis e a nosso ver frutíferos de investigação.

O primeiro: uma análise de produtos de comunicação de massa, independentemente do tipo (jornalístico, de entretenimento, de informação etc) e de suas respectivas dinâmicas de verdade (estratégias de garantia destas últimas).

Em segundo lugar, e isso é especialmente importante para os teóricos do campo da comunicação no Brasil: uma investigação de textos teóricos do campo comunicacional (artigos, teses e dissertações etc) e uma abordagem do tipo de evidência que a esses textos dá sustentação.

No presente artigo nos restringiremos ao primeiro caminho, deixando o segundo para futuras oportunidades.

Vamos tomar um produto de comunicação de massa que em princípio tem certa pretensão a sustentar um discurso verdadeiro, ainda que polêmico, e submetê-lo a uma análise epistemológica em busca de suas estratégias de legitimação. Não se trata, é importante que se diga, de estabelecer se o que é sustentado é verdadeiro ou não (tal questão não nos interessa), mas apenas de ver que mecanismos são mobilizados para fazer crer quem o assiste que seja verdadeiro. Nossa metodologia de trabalho ficará clara na medida em que formos avançando.

O produto do qual nos ocupamos é um episódio da série de documentários exibida pelo canal a cabo History intitulada Alienígenas do Passado (Ancient Aliens).

O History comporta em seu nome um certo compromisso com a verdade. Com presença em vários meios diferentes além da TV por assinatura, assim se apresenta no seu canal Youtube: “Bem-vindo ao canal oficial do HISTORY no Youtube, o principal destino de séries, documentários e produções originais que conectam os espectadores à história de maneira informativa, envolvente e divertida, em todas as plataformas”[1]. A página no Facebook indica uma comunidade de cerca de 43 milhões de pessoas[2].

Sobre o programa Alienígenas do Passado, lemos na Wikipedia:

Alienígenas do Passado ou Alienígenas, é uma série televisiva americana que estreou em 20 de abril de 2010 no The History Channel. Produzido pela Prometheus Entertainment, o programa apresenta hipóteses de antigos astronautas e propõe que textos históricos, arqueologia e lendas contêm evidências de contato humano-extraterrestres. A série é criticada por ser pseudocientífica e pseudohistórica[3]

 

A verdade está la fora...

Passemos a uma análise, que será relativamente detalhada e possivelmente enfadonha para o leitor, de nosso episódio de Alienígenas do Passado, o intitulado Dispositivos Misteriosos[4]. No Youtube, é assim apresentado o filme: “Será que as grandes construções do passado foram feitas com tecnologia alienígena? Assista ao vídeo e descubra! Mas fique ligado: esse episódio completo de ALIENÍGENAS DO PASSADO ficará disponível por tempo limitado. Corra para assistir!”[5]

Como uma espécie de prefácio, o filme se inicia com o Narrador apresentando alguns instrumentos tecnológicos antigos (computador de 2 mil anos, elementos de produção de energia e armas supostamente superpoderosas), sendo que para cada um deles um dos especialistas que aparecerão no restante do vídeo é invocado. O mesmo Narrador, então, contextualiza todos os casos que serão analisados na sequência: “Por todo o mundo existem artefatos e estórias que indicam tecnologia avançada no passado distante. Poderiam eles ser produto da imaginação de nossos ancestrais ou existirá uma explicação mais profunda?” (0’25” - as indicações doravante se referem ao tempo do filme). David Childress (assim apresentado: Autor, A incrível tecnologia dos antigos. Ao longo de todo o presente texto o que aparecer entre parêntese ao lado dos nomes dos indivíduos que aparecem no vídeo é a forma como lá foram creditados), dá então o passo que conduz aos extraterrestres: “Parece fantástico para nós que eles tivessem uma tecnologia alienígena. É claramente o que eles estão descrevendo” (0’42”). Finalizando esta espécie de prefácio, o Narrador prossegue: “Milhões de pessoas no mundo acreditam que fomos visitados por seres extraterrestres no passado. E se for verdade? Os antigos alienígenas realmente ajudaram a construir a nossa história? Se assim for, poderemos encontrar provas examinando dispositivos misteriosos?” (0’51”). Na tela, imagens e perguntas sobre extraterrestres: “Quem foram eles? Por que vieram? Que pistas deixaram? Aonde foram? Irão retornar?”.

Temos assim o quadro geral para os casos específicos que se seguem: há tecnologia avançada no passado distante e tal tecnologia tem origem fora da terra. Os dispositivos misteriosos são as evidências que garantem o raciocínio.

Triunfalmente, é o caso de se dizer, entra o título: “Alienígenas do Passado (Edição Especial)” e o subtítulo: “Dispositivos Misteriosos”.

Dadas as limitações de espaço no presente artigo, não faremos uma análise aprofundada das imagens, apenas indicaremos ocasionalmente o modo como imagens amparam a narrativa verbal. Adiantamos apenas, em resumo, que não há nada em nenhuma das imagens que contradiga o que sustenta a narração, pelo contrário.

Alguns casos de dispositivos tecnológicos antigos são então examinados e constituem o núcleo principal do filme.

 

A pirâmide energética no Egito Antigo

Há na grande pirâmide de Gizé um duto de ar que supostamente leva à Câmara da Rainha e que os arqueólogos consideram túnel de ventilação. Jason Martell (Autor, Knowledge Apocalypse) explica que um robô passou pelo duto e encontrou uma porta pequena segura por duas peças metálicas.

O Narrador então faz uma intervenção importante, que consiste em apresentar as teorias “convencionais” sobre o tema para então oferecer uma explicação alternativa, dos não-convencionais, dos teóricos dos antigos astronautas. Há o convencional e a explicação inovadora, que o vídeo inteiro procura valorizar:  “De acordo com os arqueólogos convencionais, a porta e as alças de metal foram intencionalmente construídas como uma passagem simbólica para a rainha atravessar para a vida após a morte. Mas alguns pesquisadores questionaram por que essa passagem teria sido projetada com um bloqueio deliberado. E por que, em um platô repleto de pirâmides monumentais que se acreditavam servir como tumbas da realeza, a Grande Pirâmide é a única com uma porta assim” (2’33”).

Philip Coppens (Autor, The Ancient Alien Question) chama atenção para o fato de que muitas pirâmides encontradas intactas no século XX continham sarcófagos vazios, o que permite ao Narrador retirar o caráter de tumba das pirâmides: “Se a grande pirâmide não era uma tumba, qual teria sido seu propósito verdadeiro?” (3’33”).

Somos informados que em maio de 2011 outra equipe investigou mais um duto de ar que bloqueava a Câmara da Rainha com um robô com microcâmera para filmar o que estava por trás da porta e que foi encontrado um aposento escondido dentro da pirâmide. Cristopher Dunn (Engenheiro/Autor, Lost Technologies of Ancient Egypt): “Eles encontraram utensílios de cobre ou outro metal. Outro aspecto da parte de trás dos utensílios de metal é que em suas laterais eles pareciam corroídos. A câmera também escaneou o chão. O que vimos foram manchas vermelhas. Na minha interpretação eram símbolos de eletricidade. Mas por que estavam ali?” (4’07”).

O Narrador sintetiza então a tese fundamental: “Seriam esses artefatos uma evidencia concreta de que eletricidade já teria circulado pela estrutura? Se assim for, a grande pirâmide de Gizé poderia ter sido construída para servir não como uma tumba real mas como uma usina de força como alguns pesquisadores argumentam?” (4’38”).

Mas é preciso especificar e detalhar o funcionamento dessa máquina de produção de energia. “Se a grande pirâmide era uma máquina sofisticada, potencialmente capaz de criar energia, como teria funcionado? Alguns pesquisadores acreditam que indícios poderão ser encontrados explorando-se a parte em baixo da estrutura” (Narrador, 5’33”). É então apresentada por este mesmo Narrador a teoria do engenheiro marítimo Cadman de que água era bombeada do Nilo para uma câmera sob a pirâmide, o que criaria uma pressão hidráulica que faria a pirâmide toda vibrar. John Cadman (Engenheiro e inventor): “Na câmara subterrânea existem evidências que mostram ter havido a presença de água ali e que existe erosão pela água no solo e em cima na área estreita. Isso porque havia um gerador de pulso hidráulico. A onda de rarefação é uma onda de pressão extremamente baixa que deve ter atingido o teto que está rachado. Deve ter acontecido porque as ondas de compressão atingiram o teto e isso é bem evidente” (6’17”).

Mas qual seria a função desse pulso hidráulico?

Uma análise dos dutos que chegavam à Câmara da Rainha pode ajudar na resposta. Dunn acredita que por um duto chegava zinco hidratado e por outro ácido clorídrico diluído, as duas substâncias seriam colocadas nos dutos e depois misturadas na Câmara da Rainha provocando combustão. Uma demonstração em laboratório por Dunn da mistura desses dois componentes químicos tem então lugar, onde aprendemos que a reação gera vapor de hidrogênio.

O Narrador sintetiza o fundamental se referindo a Dunn: “Dunn especula que o gás hidrogênio passou da Câmara da Rainha para a Câmara do Rei. Então as vibrações da piscina subterrânea energizaram os átomos de hidrogênio tornando-os um feixe de energia de micro-ondas” (8’23”). O próprio Dunn enuncia a conclusão: “A evidência que indica o uso de hidrogênio pode ser achada na Câmara do Rei. Há um duto, nessa câmara, com dimensões de 8,4 que seriam adequadas para um guia de ondas, para um laser ou amplificação de microondas através da emissão de radiação estimulada. A partir daí nós podemos propor muitas ideias diferentes sobre o que eles fizeram com isso” (8’42”).

A grande estrela do programa, Giorgio A. Tsoukalos (Editor, Revista Legendary Times) faz a ligação dessa maravilhosa tecnologia egípcia com nossos irmãos de outros planetas: “Os antigos egípcios demonstraram um nível excepcional de habilidade em tudo o que eles criaram durante o antigo império mas uma dúvida permanece: eles fizeram tudo sozinhos ou tiveram acesso a informações ou tecnologia que não eram deste planeta?” (9’15”). Esta pergunta permite que o Narrador apresente o segundo caso a ser abordado: “Se Gizé era de fato uma usina, poderia a energia ter sido usada para propósitos transcendentes como alguns teóricos dos antigos astronautas sugerem? Talvez mais evidências de que uma tecnologia mais avançada existiu na terra há milhares de anos atrás sejam encontradas examinando-se outro dispositivo misterioso: a Arca da Aliança” (9’37”).

 

A Arca como arma

Trata-se da questão da queda das muralhas de Jericó, segundo a Bíblia Hebraica. A narrativa sendo conhecida, há um detalhe que é especialmente importante: a Arca da Aliança estava presente quando foram tocadas as trombetas de chifre de carneiro e as muralhas desabaram.

O Narrador opera então o que já fizera anteriormente, opor teorias tradicionais a ideias inovadoras, valorizando as segundas: para os religiosos foi um milagre, para maioria dos cientistas e historiadores, terremoto; “[…] mas poderia ter sido outra coisa? Será que os israelitas possuíam uma tecnologia avançada de ondas de som? Se assim for, de onde ela veio?” (11’49”). Esse tipo de formulação, “se assim for, então...” é frequente. Tomado rigorosamente, condiciona todos os desenvolvimentos à premissa (se assim for). Na dinâmica do vídeo, contudo, uma vez enunciado o “se assim for” a narrativa passa a operar como se assim fosse, saímos da possibilidade para a realidade, retoricamente agindo um interessante mecanismo de afirmação de uma verdade anteriormente apenas possível.

Um indivíduo com título acadêmico é então citado, o que dá credibilidade ao que se apresenta no vídeo: Jonathan Young (PH.D.: Curador fundador, Joseph Campbel Archives) retoma história da queda das muralhas de Jericó destacando a presença da Arca da Aliança.

David Childress opera esse tipo de raciocínio em que uma possibilidade é imperceptivelmente transformada em realidade: “A ideia de um tipo de arma sônica ter sido usada para destruir a velha muralha, imensa e compacta, para permitir que os israelitas dominassem a cidade, é fascinante. Que tipo e tecnologia eles estavam usando? É absolutamente fantástico para nós que eles tivessem uma tecnologia alienígena avançada. Claramente é o que estão descrevendo” (12’29”).

Mais uma autoridade com títulos acadêmicos é utilizada, Tudor Parfitt (Prof. de Estudos Judaicos, Univ. de Londres): “Existe uma pequena dúvida sobre a Arca da Aliança ser uma arma. Foi descrita como tal quando os israelitas atravessaram para Canaã tendo de passar por Jericó. Pode ser que houvesse alguma tecnologia” (12’57”). Notem-se certas reservas na fala dos acadêmicos que desaparecem da estrutura operada pelo Narrador: “De acordo com muitos teóricos dos antigos astronautas, Moisés e os israelitas alcançaram uma fonte sobrenatural de energia no monte Sinai. Essa poderosa fonte de energia mais tarde foi encerrada na Arca da Aliança e teria proporcionado o poder necessário para amplificar o som dos chifres de Josué transformando-os em uma arma sônica poderosa” (13’20).

Mas é necessário que essa tecnologia tenha origem alienígena, o que fica a cargo de David Wilcok (Autor/cineasta): “A Arca da Aliança parece ser uma espécie de tecnologia avançada. O interessante sobre a batalha de Jericó é que esse uso em particular do shofar parece a mesma coisa que nós vemos na tecnologia do feixe de partículas, a tecnologia do Raio da Morte, a tecnologia do thunderbolt. Claramente parece que mais uma vez temos uma tecnologia extraterrestre que os antigos tinham para uso imediato quanto necessário em campanhas militares” (13’45”).

Permanece a questão técnica de se sons de trombetas poderiam derrubar as muralhas. Taylor Wang (PH.D.: Professor/Astronauta Americano, Ônibus Espacial Challenger) entra em cena para afirmar essa possibilidade: “As muralhas de Jericó desabaram. Diz-se que aconteceu por causa da acústica, por causa do som. A possibilidade seria de uma ressonância aumentada naquelas muralhas. Talvez não em toda a estrutura, talvez em parte apenas. Quando acontece a ressonância a amplitude se torna muito grande. Sim ela poderia destruir quase tudo porque a ressonância acumula uma quantidade enorme de energia e continuamos a alimentá-la. Eventualmente ela destrói tudo” (14’44”). O físico Michael Dennin (PH.D.: Físico, Universidade da Califórnia, Irvine) explica a física do som como onda de pressão que vai impactar o que se tenta destruir; “[…] e ela pode ser destrutiva se colocarmos energia suficiente” (15’52”), o som focado funcionando como um feixe de energia direcionado.

O Narrador então apresenta a possibilidade da Arca da Aliança ser de origem alienígena e liga isso à existência de outros dispositivos igualmente singulares, o que permite a passagem para o caso seguinte: “A tecnologia extraterrestre avançada realmente ajudou os israelitas a sobreviverem ao êxodo como afirma a Bíblia hebraica? Se assim for, poderiam os antigos ter possuído outros dispositivos tecnológicos igualmente extraordinários? Os teóricos dos antigos astronautas dizem que sim e acreditam que mais indícios podem ser encontrados examinando-se um objeto que data do segundo século antes de Cristo e que funcionava como um computador. Os alienígenas realmente inspiraram nossos ancestrais a construir templos e pirâmides? E se estiverem aqui, deixaram para trás algum conhecimento avançado de física, astronomia ou matemática? Se assim for, existe alguma evidência que perdura até hoje? Um exemplo pode ser este, descrito como o primeiro computador mecânico do mundo. Ele data de mais de dois mil anos” (16’10”). O dispositivo de Anticítera, cuja realidade é evidente, cauciona uma suposta força destrutiva da Arca da Aliança: níveis lógicos diferentes são enroscados retoricamente para provar o que se quer provar.

 

O computador de Anticítera

David Childress relata a história da descoberta do dispositivo de Anticítera, relato bem factual “[…] era mesmo um computador, uma máquina muito sofisticada” (17’16”).

Jason Martell sustenta algo que nos parece importante na economia discursiva do filme, a ideia de que a tecnologia antiga era mais avançada do que tecnologias atuais: “Era um fragmento de tecnologia muito interessante que tinha um mecanismo e funcionamento interno mais complicado do que um relógio suíço moderno. Ele data de cerca de 200 antes de Cristo. É realmente uma anomalia em se tratando de quem pode tê-lo criado e para que uso” (18’07”). David Childress vai na mesma linha: “Quando os arqueólogos começaram a examinar esse objeto na década de 1950 disseram que não podiam imaginar que os gregos tivessem uma máquina tão complicada e até disseram que era equivalente a encontrar um avião a jato na tumba do faraó Tutancâmon” (18’51”).

Curiosamente, no caso de Anticítera, tratado de modo relativamente sumário, não há destaque para uma origem extraterrestre da tecnologia…

O Narrador encadeia então o próximo caso: “Ainda mais antigos que o mecanismo de Anticítera são esses entalhes no complexo do templo de Dendera no Egito. Para alguns, os estranhos desenhos parecem inexplicavelmente similar [sic] a objetos usados amplamente hoje” (19’19”).

 

Lâmpadas elétricas

Giorgio A. Tsoukalos coloca o problema: “No Egito, existe uma cripta construída em Dendera, mantida secretamente e apenas acessível aos sumos sacerdotes. É muito quente ali, muito estreito, o teto é baixo e nas paredes nós vemos relevos do que parecem ser lâmpadas antigas [nesse momento as imagens aparecem em destaque] e nós temos que questionar uma coisa: como os antigos egípcios iluminavam o interior de suas tumbas?” (19’36”).

Nosso Narrador informa que os “arqueólogos convencionais” sustentam que os antigos egípcios usavam tochas para iluminação das câmaras das tumbas e templos escuros, “entretanto, nos templos não existem os mínimos indícios de resíduos de fuligem ou fumaça.” (20’10”).

O fato de não haver resíduos e a ideia questionável da falta de oxigênio permitem a Tsoukalos interpretar os relevos acima mencionados como lâmpadas: “Não há oxigênio suficiente no interior dessas tumbas para manter ou alimentar a chama de uma tocha. A única solução que resta é uma fonte de algum tipo de luz artificial e isso é por exemplo uma lâmpada. Na cripta secreta em Dendera encontramos relevos dessas lâmpadas” (20’29”).

Tal possibilidade leva ao problema da alimentação de energia, o que nos conduz a um novo artefato tecnológico antigo (com o perdão da aparente contradição): “Mas como os antigos egípcios usaram algo similar a uma lâmpada moderna sem acesso à eletricidade? Afinal, a eletricidade só seria descoberta milhares de anos depois. Mas com exceção é claro do que os cientistas chamam de Bateria de Bagdá” (Narrador, 21’), das quais são então exibidas imagens.

Novamente trata-se de situar uma teoria convencional em relação à qual será proposta uma nova e inovadora: “A bateria foi encontrada no antigo Iraque. Estudiosos hoje dizem que não havia como o homem daquela época usar eletricidade ou lâmpadas. Eles examinaram a bateria de Bagdá. Mais ou menos uma dezena foi encontrada no Iraque. E a única teoria convencional diz que elas foram usadas em joias galvanizadas” (Martell, 21’16”).

Martell e Tsoukalos, apresentados como “dois principais proponentes da antiga teoria alienígena” (21’35”), demonstram, de modo muito competente, então, com um modelo moderno, como a bateria antiga de Bagdá produzia eletricidade.

Noory e Childress sintetizam a certeza da presença dessa tecnologia de produção de eletricidade na Antiguidade, o que levará ao problema extraterrestre. George Noory (Apresentador de rádio, Coast to coast AM): “É uma bateria, todos estão de acordo. Mas ninguém sabe porque a fizeram nem como a fizeram. Que cérebro pensaria nisso? Corrente elétrica milhares de anos atrás. Muito estranho, mas claramente é uma bateria.” (22’57”); David Childress: “A ideia de civilizações antigas terem conhecimento de eletricidade e a utilizarem é um fato arqueológico aceito hoje. Como na nossa própria civilização, quando duzentos anos atrás, Benjamin Franklin e outros cientistas começaram experimentos com dispositivos elétricos simples, hoje temos evidências de que há mais de três mil anos também havia experimentos com dispositivos elétricos. Para onde isso os teria levado? Que outros dispositivos elétricos eles conseguiram criar? Eu creio que criaram todos os tipos de dispositivos elétricos.” (23’12”).

Curiosamente, mais uma vez, a origem extraterrestre da tecnologia da bateria não é explorada de modo específico: tanto o dispositivo de Anticítera quanto a bateria de Bagdá ficam no limbo de uma demonstração de sua origem alienígena e a discussão prossegue e direção a outro objeto, dessa vez contemporâneo. O fato dos mencionados objetos não serem explicitamente vinculados a extraterrestres não deve contudo eliminar a ideia, subjacente a todo o filme, de que tudo o que está sendo abordado teria essa origem. A não explicitação pode eventualmente ser uma estratégia de persuasão, como se o conjunto do vídeo no limite legitimasse a mesma origem para todos os aparelhos analisados.

Assim fala o Narrador: “O dispositivo de Anticítera e a bateria de Bagdá serão evidências de que nossos ancestrais realmente possuíam tecnologia avançada? Se assim for, será que essa tecnologia teve origens extraterrestres? Os teóricos dos antigos astronautas acreditam que outros indícios poderão ser encontrados na história de um projeto nazista ultrassecreto conhecido simplesmente por O Sino” (23’55”). Avançamos no “se assim for” sem que nada efetivamente se comprove.

 

O Sino e a viagem no tempo

Temos aqui o caso de uma possível máquina do tempo, no que é a nosso ver a argumentação mais truncada de todo o filme.

Um local na Polônia seria o suposto lugar onde os nazistas tentaram criar uma máquina do tempo. A estrutura arquitetônica é mostrada em imagens: “[…] encontra-se uma estranha estrutura circular conhecida como henge ou flytrap” (24’29”).

Igor Witkowski (Autor, The truth about the wunderwaffe) descreve o vale que teria sido transformado em local secreto de pesquisa, explica que era vigiado e explica geometria do lugar: “No interior do círculo mais secreto temos esta estrutura que é bem misteriosa” 25’06”). Note-se que em princípio a estrutura pode ter sido destinada a diferentes usos e que em si é tão misteriosa quanto qualquer ruína da época da Segunda Guerra.

O estilo argumentativo que opõe o convencional à inovação contida nas teorias apresentadas no filme é novamente posto em ação pelo Narrador: “Estudiosos convencionais acreditam que a estrutura servia como base de sustentação de concreto para uma torre de resfriamento usada por uma mina de carvão. Mas, de acordo com Witkowski e outros, o alto-comando alemão não teria empregado aqui tantos recursos militares se o vale tivesse apenas uma usina de energia. Eles dizem que o henge era usado para testar uma máquina altamente avançada conhecida como die Glocke ou o Sino” (25’16”).

Dois indivíduos situam então o Sino como ultrassecreto e como tendo um sistema de propulsão. Jim Marrs (Autor, Alien Agenda): “O Sino, die Glocke, foi provavelmente um dos projetos ultrassecretos do terceiro Reich. Era tão secreto que não se tem certeza do quanto o próprio Hitler sabia” (25’48”); Dr. Steven M. Greer (Diretor, Projeto Revelação): “Existem muitas evidências sugerindo que cientistas incluindo Hermann Oberth e Werner von Braun e outros estavam trabalhando em um veículo em forma de sino que era eletromagnético em seu sistema de propulsão” (26’00”).

O problema que se coloca é que a aerodinâmica do sino se desenha como bastante inadequada para um veículo de transporte espacial, o que fará com que seja interpretado como um veículo temporal. Um físico, Michael Dennin, é invocado para atestar a tese da má aerodinâmica do Sino para viagens espaciais envolvendo movimento horizontal.

A partir da caução do físico Dennin sobre aerodinâmica ruim, o Narrador situa então as viagens temporais: “Mas, se o Sino não era um novo tipo de veículo aéreo, então o que era? De acordo com alguns teóricos dos antigos astronautas o Sino pode ter sido uma máquina do tempo” (27’02”).

É preciso estabelecer, para que a argumentação faça sentido, a tese de que viagens no tempo são possíveis.

Igor Witkowski inicia uma argumentação que de modo estranho só pode ser convincente em razão de sua obscuridade: “Há um tipo de vórtice chamado Solidão que se isola eletromagneticamente do mundo exterior. Pesquisas e experimentos recentes demonstram que a ligação entre gravidade e física eletromagnética é muito mais forte do que os cientistas pensaram durante algum tempo” (27’15”). Surpreendentemente o Dr. Steven M. Greer, retoma o tema do deslocamento no espaço: “As leis do universo sendo universais, se você pegar o campo magnético certo e voltagem alta, e fazê-los vibrar ou sincronizá-los [sic] de certa maneira, você obtém um fenômeno muito estranho. Pode fazer objetos desaparecerem ou reaparecerem. Dessa forma, é obvio que isso seria estudado e que o Sino nazista era provavelmente uma tentativa daquele governo de desenvolver algum tipo de máquina voadora que fizesse uso desses conceitos eletromagnéticos avançados” (27’36”) - o óbvio e o provavelmente utilizados não são de modo algum evidentes.

O Narrador se refere a Einstein, no sentido de caucionar a possibilidade da viagem no tempo: “Mas, a viagem no tempo seria uma possibilidade? De acordo com o físico alemão Albert Einstein os seres humanos seriam teoricamente capazes disso” (28’09”). Michael Dennin: “A Teoria da Relatividade de Einstein mostrou pela primeira vez que o tempo pode passar mais lentamente quando você vai muito rápido e isso tem um impacto em termos de futuro. Permite que você viaje realmente rápido para algum lugar o seu tempo passando mais rápido do que para outras pessoas e você acaba num futuro relativo ao que pensou que estivesse fazendo. O mais difícil de pensar é sobre a Relatividade Geral onde Einstein fala de gravidade e de como descrevê-la e aí você pode começar a pensar sobre espaço-tempo, em dobrá-lo e ao alterar o espaço e o tempo da maneira certa você acaba por voltar ao passado” (28’20”).

O Narrador informa que não existem registros indicando que o Sino foi usado durante a guerra, o que ao mesmo tempo põe em dúvida o uso como arma mas naturaliza sua existência, deixando sub-reptícia a ideia de que a existência era certa, não o uso. O mesmo Narrador então introduz um dado de realidade inquestionável: quando as forças militares aliadas invadiram a Alemanha, todo o projeto e seu comandante, o General da SS Hans Kammler subitamente desapareceram (29’01”).

Esse desaparecimento, tão problemático quanto o de vários oficiais alemães no pós-guerra, será evidentemente ligado ao Sino e a uma suposta viagem no tempo. Jim Marrs: “O General da SS Hans Kammler ia desertar em troca de imunidade. Mas ao final da guerra ele desapareceu. Para onde Hans Kammler foi e o que ele levou? Acho que ele levou o Sino. Ele criou um buraco de minhoca, criou um portal estelar? Era nisso que os nazistas trabalhavam” (”29’19”). É introduzida, sutilmente, no final da frase, a ideia da certeza de que O Sino era objeto de pesquisa nazista.

Assim como o dispositivo de Anticítera e a bateria de Bagdá, a origem extraterrestre do Sino não é desenvolvida… O Narrador nos leva então ao próximo caso: “Kammler e outros nazistas realmente usaram o Sino para escapar da justiça desaparecendo através do tempo ou possivelmente indo para outro planeta? Na primavera de 1945 o esforço de guerra da Alemanha desmoronou e enquanto os exércitos aliados avançavam na direção de Berlim cientistas e engenheiros alemães abandonaram os seus laboratórios. A busca de Hitler por uma arma prodigiosa falhou. Em vez disso, foram os americanos que conseguiram uma vantagem tecnológica decisiva desenvolvendo a bomba atômica. Mas, de acordo com os teóricos dos antigos astronautas, uma arma similar e talvez ainda mais devastadora já existira. Lançada em uma área que hoje é parte da Índia mais de três mil anos atrás. Um veículo aéreo não tripulado move-se rapidamente pelo céu. Ele viaja em velocidade supersônica cuspindo fogo, lançando mísseis mortais, programado para procurar e destruir. O efeito é devastador. Uma guerra high tech em sua forma mais letal. Mas, o que poderia ser uma página roubada de um projeto superconfidencial do exército americano, é apenas uma descrição redigida há mais de dois mil e quinhentos anos constante no sagrado texto hindu conhecido como o Mahabarata” (29’46”).

 

Mahabarata atômico

Philip Coppens fala dos antigos relatos hindus que envolviam batalhas de deuses. Na mesma linha, David Childress prossegue: “Quando lemos os épicos hindus, eles falam de armas horríveis, mísseis, armas atômicas, armas maciças a laser que derretem e devastam cidades inteiras” (31’32”).

A primeira intervenção importante para a construção da argumentação vem então de Giorgio A. Tsoukalos, atribuindo aos relatos alguma forma de realidade histórica: “Eu me recuso a pensar que os nossos ancestrais inventaram essas histórias do nada. Quando a escrita foi inventada, o que eles fizeram foi escrever sua história e as primeiras coisas que foram escritas eram eventos ocorridos” (31’01”).

O infatigável Narrador intervem então para colocar em cena as teorias defendidas no filme: “Como é possível que alguns dos primeiros relatos de guerra escritos descrevem [sic] armamento sofisticado que os humanos só desenvolveriam milhares de anos depois? Como resposta, os teóricos dos antigos astronautas apontam numerosas descrições de armas letais encontradas no Mahabarata. Muitas espantosamente similares àquelas usadas hoje pelos exércitos” (‘32”20). A suposta resposta é uma tautologia.

É tratado então um exemplo, com a caução de um professor, Deepak Shimkhada (PH. D.: Professor Adjunto de Religião, Claremont Graduate University): “Vishnu tem um míssil voador guiado, o Naraianastra. Uma vez lançado, ele destruirá tudo que estiver se mexendo. De acordo com a descrição, é uma arma detectora de movimentos. O que é bem similar ao nosso armamento moderno. Há também uma arma que busca o calor” (32’59”). Ao professor acrescenta-se o militar Major-General Robert S. Dickman (Força Aérea dos EUA (apos.): Diretor Executivo, Instituto Americano de Aeronáutica e Astronáutica) abordando a eficácia de mísseis detectores de calor. Tsoukalos aborda então os mísseis como se fossem uma realidade dada, naturalizando sua existência antiga: “Eu sei bem que existem muitas forças da natureza. O trovão, os relâmpagos, os terremotos, mas como você passa de testemunhar isso a uma descrição de mísseis detectores de calor?” (33’45”).

Mas o Mahabarata comporta diversas outras armas, que são tratadas pelo professor Deepak Shimkhada. Este fala dos 46 tipos diferentes de armas descritos no Mahabarata, destacando uma arma que se multiplica em sete flechas diferentes; um objeto voador com ação furtiva, um gás que faz adormecer.

O passo seguinte é dado por David Childress é a ligação dessas armas antigas supermodernas com os alienígenas: “Eles falam de armas de tecnologia tão incrível que só poderiam ser de extraterrestres” (34’50”).

Novamente Deepak Shimkhada discute a Brahma Astra, que o Narrador anteriormente nomeara com a mais letal de todas: “[...] a arma suprema. Uma vez lançada ela simplesmente queima tudo. Ela incineraria o universo inteiro. Estamos falando de uma explosão nuclear cuja magnitude é cem vezes maior do que a de bombas que já vimos ou experimentamos em nossa época. Por isso jamais deveria ser usada. No entanto, alguém ia usar a Brahma Astra. Esse é o dilema sobre o qual os livros falam no Mahabarata” (35’14”). Em um imenso salto cronológico, desenrola-se então uma breve discussão do programa de foguetes da Índia, pois “Os hindus estão se voltando para seus textos ou sua mitologia, revivendo-os através de sua tecnologia moderna” (Shimkhada, 36’03”).

O Narrador utiliza uma estratégia argumentativa interessante, colocando a presença alienígena no Mahabarata como possibilidade e, e aqui está o ponto mais importante para nossas análises, condicionando sua validade ao fato de que o futuro militar de nosso tempo deveria poder ser conhecido a partir de uma análise do passado, que é o que o filme então vai realizar. Num salto lógico infundado, uma semelhança do relato do Mahabarata com armas atuais confirma a influência extraterrestre: “É possível que seres alienígenas visitando a terra há milhares de anos lidaram com as mesmas questões de aniquilação nuclear com as quais os humanos lidam hoje? E será que as armas letais sendo preparadas hoje pelos exércitos mundiais são realmente uma recriação de armas usadas na terra por extraterrestres no passado distante? Talvez. Mas então deveria ser possível prever o futuro militar da humanidade pesquisando ainda mais textos antigos” (35’14”). Segue, então, o mesmo Narrador mencionando testes de uma arma em 2010 pela marinha americana que tem grande poder e derruba drones durante testes secretos: distante quase 3.200 metros, um raio de energia intensa a laser incendeia objetos viajando a mais de 4802 km/h, Raio da Morte. O Dr. Steven M. Greer vem então à cena dar realidade à presença desse suposto raio na Antiguidade: “Estou convencido de que no passado havia civilizações avançadas na terra que possuíam objetos tais como o chamado Raio da Morte. Se era usado como arma ou se apenas observaram seu uso é uma questão. É preciso esclarecer” (37’49”). O que nos leva ao caso do Raio da Morte Grego.

 

O Raio da Morte siciliano

Trata-se do ataque de Siracusa pela frota romana em 214 A.C., onde teria sido usado defensivamente um raio para atacar os barcos dos invasores. O Narrador sustenta que “textos antigos sugerem que Siracusa foi bem defendida por uma nova arma, misteriosa e poderosa” (38’21”). Não há uma explicitação de que textos antigos são esses.

David Childress: “Provavelmente o mais famoso Raio da Morte antigo foi construído pelo inventor grego Arquimedes. Ele conseguiu criar um espelho gigantesco e um disco parabólico focando os raios de sol na frota e incendiando os navios. Aqui temos o que seria um Raio da Morte primitivo que realmente funcionou” (38’30”).

A origem da invenção deve então ser buscada em relatos ainda mais antigos, como sustenta o Narrador: “Mas como Arquimedes concebeu uma arma tão formidável? Uma arma tão avançada para aquela época. Pesquisadores sugerem que o inventor pode ter se inspirado nos mitos gregos escritos cerca de 600 anos antes da batalha de Siracusa, mitos que contavam histórias de deuses brandindo armas cósmicas de incrível força destrutiva” (39’02”).

Passamos então a uma menção a textos gregos em que esse tipo de arma era citado: David Wilcok: “Se olharmos a tradição grega, eles tem uma descrição muito clara do thunderbolt de Zeus que ele podia apontar para as pessoas ou para outras coisas que ele desejava explodir. Apertava o botão e o que eles descreviam como relâmpagos criava uma explosão terrível” (39’31”).

Para que tais relatos ganhem realidade histórica, o filme parte então em busca de evidências tangíveis de comprovação, o que vai ser encontrado na Escócia contemporânea. “Mas, se armas do tipo Raio da Morte foram usadas na antiguidade, não haveria alguma prova tangível? Talvez haja. Aqui, espalhadas pelo interior da Escócia, encontram-se muitas ruínas antigas. Muitas parecem ter sido fortes ou outras construções cercadas, datadas de milhares de anos. Notavelmente, elas também parecem ter sido submetidas a fogo e calor tão intensos que praticamente transformaram as estruturas de pedra em vidro. É um processo mais conhecido cientificamente como vitrificação” (Narrador, 39’53”). David Wilcok ratifica a validade dessas evidências: “Temos aqui construções de pedras nas quais uma análise de seu exterior concluiu que elas foram aquecidas a mais de mil graus centígrados de temperatura. O fogo convencional não teria a capacidade de atingir esse calor, seria preciso queimar a mil graus por um longo período de tempo” (40’34”).

O Narrador invoca então a mitologia celta para dar mais peso ao argumento: “De acordo com as lendas celtas, existia um deus chamado Lugh, também conhecido como aquele que brilha, o deus Sol e o deus da Guerra. Assim como o deus grego Zeus, dizia-se que Lugh tinha uma poderosa lança mágica, não diferente do thunderbolt de sua contraparte grega” (40’58”).

Giorgio Tsoukalos faz então uma interessante intervenção amarrando as evidências escocesas, os relatos antigos e as armas atuais e sustentando que o que temos hoje tivemos no passado: “Quando a batalha se aproximava, Lugh tomava a sua lança e um troar e línguas de fogo saíam dela e destruíam as fileiras inimigas. E jamais se cansavam de matar e destruir. Era uma arma espantosa. Afinal, de que outra forma podemos explicar os fortes vitrificados dos quais a superfície das pedras são [sic] lisas com vidro? E esses pontos só podem se encontrados em áreas muito específicas da Escócia setentrional. Todas as descrições de armamento sofisticado quase soam como ficção científica, mas será isso realmente? Porque temos essas armas hoje. E acho que tudo o que temos hoje já se usou no passado. E nosso passado não é ficção científica, mas fatos científicos” (41’21”).

O Narrador faz o fechamento final do filme: “Feixes de laser letais, armas acústicas, máquinas do tempo, será que esses dispositivos misteriosos pertenceram realmente aos nossos ancestrais milhares de anos atrás? E se assim for, poderiam ter sido construídos com a ajuda de seres extraterrestres? Talvez, à medida que nossa própria tecnologia continue a avançar, cheguemos perto não apenas do nosso futuro, mas da redescoberta de nosso passado e uma religação com nossos ancestrais alienígenas” (42’32”).

 

Considerações sobre as estratégias de verdade

Esse relativamente longo e penoso, mas necessário, acompanhamento do desenrolar argumentativo do texto (tal como definido acima a partir de McKenzie) que é o programa Alienígenas do Passado – Dispositivos Misteriosos, nos permite chegar a algumas conclusões.

Em primeiro lugar, destaque-se que o correto encadeamento lógico da argumentação nem sempre é realizado. Frequentemente, a aparente racionalidade esconde inconsistências sérias: o fato de armas serem incríveis, por exemplo, não é base lógica para se concluir que são de origem extraterrestre (“Eles falam de armas de tecnologia tão incrível que só poderiam ser de extraterrestres” (34’50”). Mais do que um bom encadeamento lógico, está em jogo a produção de uma certa aparência de logicidade. Essa aparência certamente tem em si uma força persuasiva, dada a dificuldade que o público pode experimentar de acompanhar o desenrolar do que se diz, talvez mais forte do que a efetiva lógica: uma lógica aparente por importar mais do que uma lógica efetiva.

Em segundo lugar, não há nenhuma apresentação de argumentos, autores ou evidências contrários à tese que se apresenta no filme. O que é apresentado vem sempre confirmar o que se sustenta, sem que qualquer reflexão crítica seja realizada. Assim, por exemplo, não são consideradas ou mesmo cogitadas explicações alternativas para as formações rochosas na Escócia que “provariam” o uso de um antigo Raio da Morte.

A única exceção a essa parcialidade que consiste na não apresentação de material contraditório acontece em vários momentos, no início dos casos discutidos, quando são apresentadas as teorias, autores ou explicações “tradicionais” ou “convencionais” para os fatos que serão tratados. Essa exceção, contudo, não significa que haja um cuidado de abastecer o leitor com pontos de vista conflitantes: ela deve ser compreendida como um modo de confirmar as teses dos realizadores do filme. Claramente está em jogo uma operação que consiste em apresentar o tradicional ou convencional como negativo, e as ousadas, criativas e inovadoras teorias dos antigos alienígenas como um movimento positivo, um passo além, no desvelamento de uma verdade que o tradicional procura ocultar. Em nossa época, obcecada pela velocidade, a novidade, a inovação, não é surpreendente que essa estratégia retórica seja utilizada.

Outra estratégia presente é a que podemos chamar de “realidade da possibilidade”. Consiste em demonstrar que algo é possível, o que não é difícil, e deslizar do possível para o efetivamente realizado sem que efetivamente esse realizado tenha sido comprovado. Ocasionalmente um raciocínio inconsistente pode permitir que um possível estabelecido seja “comprovado” (as aspas indicam que se trata de uma comprovação inconsistente) por outro elemento posterior que com ele tem apenas uma aparente relação. Assim, por exemplo (nossos comentários estão entre colchetes e em itálico): “É possível que seres alienígenas visitando a terra há milhares de anos lidaram com as mesmas questões de aniquilação nuclear com as quais os humanos lidam hoje? [Isso é possível tal como é possível que tenham existido unicórnios ou qualquer coisa do gênero: possível não significa realmente acontecido, portanto estamos apenas no âmbito da possibilidade.] E será que as armas letais sendo preparadas hoje pelos exércitos mundiais são realmente uma recriação de armas usadas na terra por extraterrestres no passado distante? [Mais uma vez algo que é possível mas do qual não se tem provas efetivas.] Talvez [O texto mantém tudo como possibilidade, até aqui não há problemas.]. Mas então deveria ser possível prever o futuro militar da humanidade pesquisando ainda mais textos antigos” [A partir daqui o fato de que há tecnologia militar atual que apresenta semelhança com relatos antigos é tratado como prova dos dois elementos que nas duas primeiras frases são considerados possibilidades. O salto lógico ilegítimo está no “Mas então”: podemos ter uma semelhança casual entre as tecnologias atuais e os relatos antigos sem que isso prove a presença dos alienígenas e a tese da recriação atual de armas usadas pelos extraterrestres no passado.] (35’14”).

Opera-se uma espécie de naturalização do possível, o que o transforma em real. Uma leitura delicada do seguinte trecho, que já citamos acima, ilustra bem esse ponto: “A ideia de um tipo de arma sônica ter sido usada para destruir a velha muralha, imensa e compacta, para permitir que os israelitas dominassem a cidade, é fascinante [Estamos aqui no campo de uma pura ideia sem comprovação.]. Que tipo e tecnologia eles estavam usando? [Passamos a tomar a possibilidade como fato no que vem pela frente.] É absolutamente fantástico para nós que eles tivessem uma tecnologia alienígena avançada [É tomado como certo que a tecnologia avançada alienígena estava presente.]. Claramente é o que estão descrevendo [Reforça-se a certeza]” (12’29”).

Nota-se, por fim, a presença de uma tentativa de argumento de autoridade, as qualidades dos indivíduos recebendo destaque como se por si só fossem garantia de verdade. Há desde qualificações acadêmicas até coisas mais obscuras como autor de obras que nos são desconhecidas ou apresentador de rádio. Parece mais importante a apresentação de uma qualidade pomposa do que o conteúdo do que se apresenta, o que por si só interessa a nossa discussão.

É preciso situar essas estratégias discursivas em nosso momento histórico, que parece favorecer uma relação de certa superficialidade com os conteúdos midiáticos (donde a temática da importância da atenção, ou de sua falta ou déficit) e mesmo com as tecnologias: a velocidade do uso, a efemeridade da informação, a rapidez da renovação colaboram para não deixar muito tempo para uma absorção meditada e crítica. Mas isso é tema para outro trabalho.

De todo modo, o objetivo que nos ocupava - analisar os mecanismos de convencimento presentes em um produto de comunicação de massa - apresenta como resultado menos a presença de modos de convencimento argumentados e lógicos e mais a ação de um arremedo de argumentação, repleto de furos e saltos logicamente injustificáveis. Globalmente, alguns dispositivos estranhos e de origem incerta e uso desconhecido, do mesmo modo que relatos épicos, são forçadamente ligados a alienígenas e ao nosso presente, ligação que se configura como uma possibilidade entre outras mais plausíveis. Estamos em face de um convencimento de certa forma irracional ou desarrazoado, que pode ser qualificado de dogmático.

 

Referências

Alienígenas do Passado: Dispositivos Misteriosos. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=b_NSyPmCDhU - acesso em 05/02/19.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

EISENSTEIN, E. L. A Revolução da Cultura Impressa: os primórdios da Europa Moderna. São Paulo: Ática, 1998.

FEYERABEND, P. Contra o método. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das Ciências Humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

HAVELOCK, E. Prefácio a Platão. Campinas: Papirus, 1996.

KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2001.

McKENZIE, D. F. Bibliography and the sociology of texts. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.

SPINOZA, B. de. Ethics. New York, London: Hafner Press, 1949.

VEYNE, P. Acreditavam os gregos em seus mitos?: Ensaio sobre a imaginação constituinte. São Paulo: Brasiliense, 1984.

VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

 

[1] https://www.youtube.com/user/HistoryBrasil/about - acesso em 05/02/19.

[2] https://www.facebook.com/pg/CanalHISTORY/community/?ref=page_internal – acesso em 05/02/19.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Ancient_Aliens – acesso em 05/02/19.

[4] O filme está disponível no Youtube e trabalhamos com essa versão em nosso computador: https://www.youtube.com/watch?v=b_NSyPmCDhU - acesso em 05/02/19. No final de janeiro o vídeo contava 78.349 visualizações no Youtube.

[5] https://www.youtube.com/watch?v=b_NSyPmCDhU - acesso em 05/02/19. Optamos por formatar as citações de falas do vídeo na sequência do texto sem a utilização de recuo de parágrafo de modo a permitir uma leitura mais fluida.

 

Autor

MÁRCIO SOUZA GONÇALVES
Doutor em Comunicação pela UFRJ, Brasil.
Professor Associado da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.
E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 44

JUL. / DEZ. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

Leia mais