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O atentado contra Jair Bolsonaro: imagem e a violência nas eleições 2018

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Resumo

The article analyzes the construction of the image of the elected President of the Republic in 2018, Jair Bolsonaro (PSL). Our corpus is the photographs of the newspapers Folha de S. Paulo and O Estado de S. Paulo from April 15 to October 29, 2018, as well as the speeches of Jair Bolsonaro since 2014. We understand that the construction of the political character comes From 2014, Bolsonaro began to take center stage in the national media. From then on, Bolsonaro constructed an image that was aligned with the wishes of the electorate that already indicated an empty chair to be occupied by a conservative political personage. Our theoretical reference goes through political science with Carl Schmitt in the Communication with Maria Helena Weber and Georges Balandier. Keywords: Communication; politics; image; power.

El artículo analiza la construcción de la imagen del presidente de la República elegido en 2018, Jair Bolsonaro (PSL). Nuestro corpus son las fotografías de los periódicos Folha de S. Paulo y O Estado de S. Paulo desde el 9 abril hasta el 29 de octubre de 2018, así como los discursos de Jair Bolsonaro desde 2014. Entendemos que la construcción del carácter político viene A partir de 2014, Bolsonaro comenzó a tener protagonismo en los medios de comunicación nacionales. A partir de entonces, Bolsonaro construyó una imagen que estaba alineada con los deseos del electorado que ya indicaban una silla vacía para ser ocupada por un personaje político conservador. Nuestra referencia teórica pasa por la ciencia política con Carl Schmitt en la Comunicación con Maria Helena Weber y Georges Balandier. Palabras clave: Comunicación; política; imagen; poder.

Foto de capa: Reprodução de televisão

O artigo analisa a construção da imagem do presidente  da República eleito em 2018, Jair Bolsonaro (PSL). Nosso corpus são as fotografias dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo de 15 de abril de 2018 à 29 de outubro de 2018 bem como os discursos de Jair Bolsonaro desde 2014. Entendemos que a construção do personagem político vem desde 2014 quando Bolsonaro começou a ter destaque na mídia nacional. A partir de então, Bolsonaro construiu uma imagem que estava alinhada com os anseios do eleitorado que já indicava uma cadeira vazia a ser ocupada por um personagem político conservador. Nosso referencial teórico passa pela Ciência Política com Carl Schmitt, na Comunicação com Maria Helena Weber e Georges Balandier.

Palavras-chave: Comunicação; política; imagem; poder.

1. Introdução

Durante o período eleitoral a imagem tem força potencializada pela imprensa e pelas mídias sociais.  Nas eleições de 2018, diferentemente de outras disputas eleitorais, a polarização Partido dos Trabalhadores versus Partido da Social Democracia Brasileira (PT x PSDB) deu lugar a uma batalha de narrativas potencializada pela inclusão das mídias sociais nas eleições. Fizeram parte dessa disputa eleitoral o PT e o partido do presidenciável Jair Bolsonaro, o Partido Social Liberal (PSL).

No entanto, um aspecto chama a atenção nesse pleito eleitoral: se houve um  crescimento discreto no número de parlamentares eleitos, a Bancada da Bala (Frente Parlamentar das Armas) aumentou o número de parlamentares eleitos. Concomitantemente, o discurso de ódio e a violência foram a grande pauta das eleições, com seu presidenciável Jair Bolsonaro incitando o uso de armas. O ápice da violência foi o atentado à faca à Bolsonaro em 6 de setembro de 2018.

Bolsonaro vem sendo um personagem político impossível de ser ignorado desde 2014, quando afirmou publicamente que não estupraria a então deputada Maria do Rosário (PT/RS) porque ela não merecia[1]. Desde então vem proferindo discursos misóginos, racistas, contra homossexuais  e feito apologia contundente ao uso de armas. Sua imagem é sempre associada à violência e embora sua campanha eleitoral tenha tentado reverter essa imagem dura do candidato o inserindo ao lado de gays, travestis e colhendo depoimentos de mulheres e negros, uma grande parcela da população apoia esse discurso o inserindo no cenário político permanentemente.

A violência nas eleições disseminou um forte discurso do “nós contra eles”, onde o outro nessa  foi sempre visto como um inimigo a ser combatido. Seria, digamos, a tradução  da teoria de Carl Schmitt (1888-1985), que entendia a política a partir da dualidade "amigo-inimigo". O inimigo torna-se quem pensa diferente de você. Essa violência significa a negação da política, a negação da arena pública em que problemas e divergências são expostos, debatidos e resolvidos, conciliados ou tolerados. Nas eleições 2018, o debate foi o menos visto. A batalha de narrativas importou-se apenas em sobrepor um ponto de vista a outro sem a inserção do diálogo. A facada contra Jair Bolsonaro foi o ápice de uma narrativa construída sob os signos do ódio, da violência e intolerância.

Esse trabalho analisa as matérias nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, de 15 de abril de 2018[2] à 29 de outubro de 2018, dia da votação em segundo turno para presidência do país. Procuramos entender como a temática da violência e do ódio participaram do centro do debate eleitoral em 2018, destacando o episódio da facada em Jair Bolsonaro. Nosso aporte teórico dá-se em Georges Balandier, Maria Helena Weber e Carl Schmitt.

 

2. A política eleitoral brasileira 2018: o conservadorismo, a construção do inimigo e o ódio

 Diria Carl Schmitt que não há nada mais moderno do que a luta contra o político, e que ironia, o próprio Schmitt por seu conceito do político foi acusado de ser anti-moderno. Carl Schmitt partirá direto para a ideia de fundamento e tentará responder a questão: qual é o objetivo do político? (no que diz respeito aos fundamentos da vida comum). Assim como o domínio da moral é determinado pelas noções de bem e mal, o estético pelas de belo e feio, o econômico pelas categorias do lucro, a política pode ser definida a partir da distinção amigo-inimigo. Schmitt deixa claro que o inimigo ao qual se refere será sempre o inimigo público (hostis). A sua ênfase é no sentido de evitar que inimigo resvale no indivíduo (liberal) incapaz de produzir identidade e por consequência unidade. Há uma relação direta em Schmitt entre Identidade e unidade.  Este critério do político, porém, constitui um "conceito-limite", (ou caso de guerra) que é a mais extrema demonstração de inimizade e por consequência seu pressuposto último, que nos permite conhecer a natureza das formas políticas.

Apesar da importância da guerra nessa formulação do político que Carl Schmitt faz isso não implica numa defesa da guerra como tal. Está claro no texto que ela não é o fundamento nem tão pouco a finalidade da política, também não faz parte da definição de amigo-inimigo, a guerra é possibilidade não conteúdo da política, ela é na verdade o reconhecimento de que a guerra está inscrita na possibilidade das relações humanas e é sobretudo uma recusa do pacifismo que vem como consequência do estado total.  a célebre afirmação de Clausevitz de que a guerra é nada mais que prosseguimento da política por outros meios é ressignificada por Schmitt.

(...) todos os conceitos políticos, imagens, e termos tem um significado polêmico; Eles estão fundados sobre um conflito específico e estão destinados para uma situação concreta; e resulta (o qual manifesta ele próprio na guerra ou na revolução) em um agrupamento amigo-inimigo, e eles se voltam para dentro de abstrações vazias e fantasmagóricas quando essas situações desaparecem.

As eleições de 2018 foram polarizadas numa disputa de narrativas em que o outro virou um inimigo a ser combatido. O  discurso predominante da violência tornou-se um lugar de fala em que as visões de mundo se materializaram na linguagem em suas diferentes manifestações:  a  verbal,  a  visual e  a  gestual.  Mais do que uma polarização tão vista em outras eleições entre PT e PSDB, vimos uma polarização entre PT e Bolsonaro e uma batalha de narrativas onde não importa mais o debate, mas o convencimento de que a opinião do outro é inválida. O discurso do “nós contra eles” tomou uma proporção onde a fala raivosa dos próprios candidatos criminalizando o discurso adversário proporcionou um clima tenso, culminando com a facada no presidenciável Jair Bolsonaro, em 6 de setembro de 2018.

Bolsonaro (PSL) foi deputado federal desde 1991. É militar da reserva. Segundo levantamento da Agência Lupa[3], em 26 anos de atividades no Congresso, Bolsonaro apresentou 171 Projetos de Lei, de lei complementar, de decreto de legislativo e propostas de emenda à Constituição (PECs), sendo relator de 73 deles.  Bolsonaro conseguiu aprovar dois Projetos de Lei e uma emenda: uma PEC que prevê emissão de recibos junto ao voto nas urnas eletrônicas e uma proposta que estende o benefício de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens de informática e outra que autoriza o uso da fosfoetanolamina, substância que ficou conhecida no Brasil como "pílula do câncer" e que testes demonstraram não ter qualquer efeito contra a doença. O parlamentar justificou a aprovação de uma única emenda alegando que não recebe apoio suficiente dos demais congressistas por sofrer "discriminação" por possuir ideais direitistas.

Em 30 de novembro de 2010, o então parlamentar Jair Bolsonaro usa seu espaço na Tribuna da Câmara dos Deputados para criticar o projeto Escola sem Homofobia, constituído por vídeos elaborados pelo MEC, em convênio firmado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que tratavam de homossexualidade, transexualidade e bissexualidade entre jovens. O material foi criado durante a gestão do então Ministro da Educação, Fernando Haddad, adversário em 2018 de Bolsonaro no segundo turno na disputa pela presidência da República. A ideia era distribuir o material para professores e alunos do Ensino Médio de todo o Brasil. Os planos não foram para frente, no entanto. Assim que o MEC divulgou o kit, ele foi alvo de críticas e gerou polêmica entre os setores mais conservadores do País e do Congresso Nacional.  Bolsonaro, então deputado pelo PP do Rio de Janeiro, foi um dos primeiros a se posicionar contra o projeto, e alegou que o MEC e grupos LGBT "incentivaram o homossexualismo (sic) e a promiscuidade" e tornam os filhos "presas fáceis para pedófilos".

É um incentivo à promiscuidade....o seu filho de 7 anos vai assistir ano que vem se nós não tomarmos uma providência agora. Primeira historinha: um garoto de 14 anos vai no banheiro fazer pipi, um coleguinha do lado dele está fazendo pipi também e ele se apaixona por esse colega. E daí ele resolve vencer o bullying e assumir sua homossexualidade. Isso os garotos de 7,8,9 e dez anos vão assistir ano que vem. Quando a professora o chama de Ricardo em sala de aula, ele se revolta, morde os beiços, com seus trejeitos e balbucia: ‘Bianca. Me chama de Bianca. Meu nome é Bianca’. Esse filme da uma lição de moral: esse comportamento do Ricardo, da Bianca, passa a ser um comportamento exemplar para os demais alunos. (...) Dá para continuar discutindo esse assunto? Dá nojo! Esses gays, lésbicas querem que nós, a maioria, entubemos como exemplo de comportamento, a sua promiscuidade. Não podemos nos submeter ao escárnio da sociedade. (Bolsonaro, Youtube, 2011)[4]

O projeto Escola sem Homofobia recebeu duras críticas e não foi adiante. Em 2014, Bolsonaro voltou a ser o centro das atenções ao discutir com a então deputada federal pelo PT/RS, Maria do Rosário, e  afirmou que  só não "estupraria" a colega  porque ela "não merecia"[5]. Usando seu espaço na Tribuna da Câmara dos Deputados, Bolsonaro retomou o assunto discutido em novembro de 2003, quando discutiu com a parlamentar em frente às câmeras da Rede TV. "Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias [na verdade a discussão ocorreu há alguns anos] você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir", afirmou Bolsonaro.  Irritado, o deputado também mandou a deputada "catar coquinho" e fez sucessivos ataques ao governo Dilma Rousseff.  "Maria do Rosário, por que não falou sobre sequestro, tortura, execução do Prefeito Celso Daniel, do PT? Nunca ninguém falou nada sobre isso aqui, e estão tão preocupados com os direitos humanos. Vá catar coquinho", disse o deputado. "Mentirosa, deslavada e covarde", completou.

Vale lembrar que em 2014, ano dessa discussão, tomou posse o Congresso mais conservador pós-1964, de acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP). O DIAP identificou um aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo. Bolsonaro sempre foi representante dos militares e membro da Bancada da Bala. De acordo com Faganello (2015), a Bancada da Bala é a representante política de um conjunto de ideias e atitudes que se fundamentam na percepção de que o contexto social está marcado por uma crescente e constante insegurança e desordem pública radical. As experiências de violência – compartilhadas ou vivenciadas pelos indivíduos, em conjunto com os casos noticiados diariamente pelos meios de comunicação – alimentam e acabam por traçar os contornos desse diagnóstico. De acordo com o autor, haveria um excesso de liberdade e uma perda de autoridade das instituições, sustentada pela incapacidade das leis democráticas e do Estado de Direito de promover a ordem. Em sua versão mais radical, tal percepção corrobora a construção de um discurso que justifica ações extremistas, que têm como características a rejeição de uma parte essencial das regras do jogo da comunidade política e a recusa dos valores prepostos à vida pública – bem como por uma negação do entendimento das relações políticas como algo conformado por uma perspectiva gradual, negociada ou pautada para a construção de compromissos.

Um dos articuladores da campanha de Bolsonaro para presidência da República em 2018, e futuro Ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM/RS), é membro ativo da Bancada e explicita bem o pensamento conservador. Em depoimento à autora, Onyx defende seu posicionamento.

Eu só estou falando contigo porque eu era médico veterinário e sofri um atentado, à minha vida, chegando no meu local de trabalho. Eu só sobrevivi e estou falando contigo porque eu tinha uma arma na cintura e sabia usar. Não precisei dar o tiro. Mas eu sobrevivi porque pude exercer na plenitude meu direito de legítima defesa. Eu tinha uma arma na cintura, um porte legalizado, tinha técnica. E isso salvou a minha vida[6].

A Bancada da Bala sempre foi um dos respaldos de Jair  Bolsonaro, que fortaleceu seu discurso respaldado por uma grande maioria conservadora do Congresso Nacional.

Bolsonaro utiliza o discurso do medo para respaldar-se num país em que há a construção de um imaginário no qual o delinquente é sempre um “outro” distante do “cidadão de bem” e que obstrui o bom andamento da sociedade. Os aspectos identitários da vida policial como a valorização das tradições, da moralidade cristã e a espetacularização dos embates são transpostos para a vida política como forma de justificativa da proteção desses “cidadãos de bem”, o que aponta para uma cidadania cindida pela desigualdade abertamente admitida entre aqueles que merecem usufruir de seus direitos - em especial, o direito à vida- e aqueles que abandonaram o direito à cidadania para entrar no crime. (Cioccari, Persichetti, 2018, p. 206)

Ainda no mesmo estudo, as autoras (2018, p. 210) apontam para o fato de que quando Bolsonaro afirma “o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele” (Em um debate na TV Câmara, em 2010), Bolsonaro vale-se de sua influência como parlamentar. O que ele diz reverbera e pode soar como positivo aos seus seguidores. Um exemplo pode ser visto nos Tweets mais retuitados do parlamentar.  Com 12.739 retweets o post em que Bolsonaro critica abertamente o homossexualismo em tom pejorativo foi o terceiro mais replicado e mais favoritado. Isso mostra o poder de reverberação do discurso  do parlamentar. No entanto, não podemos ver Bolsonaro como um fenômeno construído tão somente pela mídia que repercute todas suas falas. Ele é representante de uma parcela de 57% da população[7] que ainda apoia a pena de morte num país em que a pena não existe desde 1855. E, de uma grande parte da população que elegeu militares, ruralistas e evangélicos como a grande maioria do Congresso em 2014 e do Congresso eleito em 2018.

 

3. Imagem e violência

Maria Helena Weber (1999, p. 123) afirma que “os movimentos da política na contemporaneidade disputam, cada vez mais intensamente, espaços de visibilidade midiática usando complexas estratégias para viabilizar relacionamentos e produzir informações com potencialidade para repercutir”.  O poder de governar sempre foi mostrado imageticamente de maneira espetacular com profusão de símbolos, sons e performance. A questão é que hoje esses poderes são amplificados pelo poder das tecnologias. A mídia, as redes sociais e o advento incessante de novas tecnologias potencializam e amplificam o que antes era mostrado apenas com outros aparatos. Esses aparatos também permitem que a participação no processo seja mais abrangente e o espetáculo chegue onde não chegaria em outras épocas. Uma consequência é a possibilidade de um outro  se manifestar e muitas vezes vociferar protegido por uma tela de computador oferecendo uma impessoalidade ao discurso que certamente não ocorreria numa manifestação frente a frente[8]. A política aciona paixões. A política de 2018 aciona  paixões numa batalha de narrativas em que o que interesse é o diálogo de um sobrepor-se ao de outro. Não mais o confronto de ideias.

E, para que exista o espetáculo é fundamental que haja interesse das partes envolvidas: mídia (palco e muitas vezes protagonista), personagem político e plateia. “A apropriação do acontecimento pelos poderes aciona paixões, sem as quais não existirá o espetáculo”(Weber, 1999, p. 98).

Jair Bolsonaro foi matéria dos jornais Folha de S. PauloO Estado de S. Paulo constantemente nos últimos anos (ver artigo A política e o espetáculo em Jair Bolsonaro, João Doria e Nelson Marchezan[9]). Suas opiniões estavam sempre presentes no cotidiano da imprensa.

A necessidade de criar, produzir e veicular imagens públicas (visuais e sociais) imagens privadas (visuais, sociais e institucionais) inclui a idéia de formação da opinião pública, teoricamente, como uma instância reguladora da política e da sociedade e, tecnicamente, como espaço de legitimação das imagens emitidas. Esta instância, no entanto, é preparada para emitir um juízo, uma opinião, através de todo o processo de fabricação das imagens (Weber, 1999, p. 9).

Numa amostra de imagens selecionadas para essa pesquisa identificamos a construção da imagem de Bolsonaro sempre coerente com seu discurso agressivo. As imagens de Bolsonaro nos dois veículos são sempre com referências ao porte de armas, dedo em riste e reforçando seu militarismo.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo, 1 de setembro de 2018

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 4 de setembro de 2018

Como afirma Boris Kossoy, “as imagens fotográficas não apenas nascem ideologizadas; estas seguem acumulando componentes ideológicos à sua história própria à medida que são omitidas ou quando voltam a ser usadas (interpretadas) para diferentes finalidades, ao longo da sua trajetória documental” ( 2009a,p. 6) . A segunda realidade como análise imagética proposta por Kossoy aplica-se à Bolsonaro quando todas as imagens selecionadas pelos veículos demonstram a mesma narrativa: a partir do discurso agressivo construído pelo próprio candidato, as suas imagens têm o mesmo recorte: armas, agressividade, raiva e militarismo, afinal “a realidade fotográfica não corresponde (necessariamente) a verdade histórica, apenas ao registro expressivo da aparência”. (KOSSOY, 1999, p.38). Novamente é o caso do candidato (presidente eleito) do PSL. Sua imagem de militar estatizante só é corroborada pelas imagens fotográficas com crianças no colo fazendo menção à armas de fogo ou quando ele pega uma metralhadora em comício ao lado de um dos maiores representantes da Bancada da Bala, o Major Olímpio, eleito senador pelo estado de São Paulo.

O grande ponto é que, sendo a mídia favorável ou não a Bolsonaro, para a compreensão teórica do espetáculo a política atualmente está completamente inserida numa lógica de paixões, emoções e dramatização. Bolsonaro e a imprensa brasileira possuem todos os mecanismos (atores e cenários, por que não dizer) necessários à lógica do espetáculo. A mídia não controla Bolsonaro e Bolsonaro nem tanto a controla. Mas as disputas e dramatizações estão presentes em todos os seus episódios. Balandier (1982, p.7) afirma que:

O poder não consegue manter-se nem pelo domínio brutal nem pela justificação racional. Ele só se realiza pela transposição, pela produção de imagens, pela manipulação de símbolos e sua organização em um quadro cerimonial. Estas operações se efetuam de modos variáveis, combináveis de apresentação da sociedade e de legitimação das posições do governo.

 

4. O atentado contra Bolsonaro

No dia 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora, Minas Gerais, o presidenciável Jair Bolsonaro sofreu um ataque a faca enquanto participava de um ato de campanha. Um vídeo mostrou Bolsonaro sendo carregado por partidários após o esfaqueamento, com o que parecia ser um papel cobrindo o local do ferimento. Ele foi levado para a emergência da Santa Casa da cidade, onde passou por cirurgia. Justamente Bolsonaro, que ganhou projeção nacional com discurso radical antissistema e com apologia às armas de fogo.

Em 6 de setembro de 2018 o jornal O Estado de S. Paulo estampava em sua capa pesquisa eleitoral que indicava Bolsonaro com 22% das intenções de voto. Marina e Ciro estavam empatados em segundo lugar com 12%.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo / 6 de setembro de 2018.

Além do destaque  do jornal  em função do resultado da pesquisa, Bolsonaro aparece na numa imagem chutando o boneco do ex-presidente Lula. A matéria era sobre a ligação do candidato com policiais militares presos no Rio de Janeiro.

No jornal Folha de S. Paulo, a capa era a imagem de Bolsonaro chutando o boneco do ex-presidente Lula.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo / 6 de setembro de 2018.

A capa do jornal O Estado de S. Paulo  do dia seguinte ao atentado é imperativa e toda dedicada ao episódio do atentado.

 

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo / 7 de setembro de 2018.

O jornal Folha de S. Paulo dedica todas as páginas da editoria de política à cobertura do caso, e nesse momento da pesquisa, faz-se necessário a réplica das partes mais contundentes.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo/ 7 de setembro de 2018

Fonte: Folha de S. Paulo / 7 de setembro de 2018

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo / 7 de setembro de 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que se segue nos dias seguintes é uma profusão de imagens e textos que só cobrem  o estado de saúde Bolsonaro bem como as posições dos outros candidatos sobre o atentado, comunicados oficiais sobre violência. Se Bolsonaro já era pauta quase diária, agora tornou-se o mote dos jornais. No dia 8 de setembro O Estado de S. Paulo dedica suas três páginas inteiras do editorial de política à Bolsonaro. Nos dias seguintes a cobertura segue massiva. Em 10 de setembro a cobertura é sobre debate da TV Gazeta/ Estado/ Rádio Jovem Pan/ Twitter. Mas a manchete é “Candidatos evitam ataques e defendem pacificação”. Na capa, a imagem de Bolsonaro na cadeira de hospital não deixa seu nome ser esquecido. Na editoria de política, a cobertura de manifestação pró-Bolsonaro. Em 11 de setembro a capa é que os adversários retomaram o tom crítico ao candidato do PSL. Em 12 de setembro a pesquisa Ibope coloca o candidato com 26% e seu nome na capa do jornal.  Todas as manchetes e imagens em torno do nome de Bolsonaro.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 11 de setembro de 2018.

A cirurgia de emergência do candidato é capa do dia 13, no jornal O Estado de S. Paulo. Uma imagem de arquivo é utilizada. Bolsonaro segue sendo a pauta principal.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo / 13 de setembro de 2018.

O jornal Folha de S. Paulo, da mesma forma. Todas as páginas da editoria de Política são para Bolsonaro. E o nome e a imagem do candidato seguem com forte  exposição, mesmo na semana seguinte. Com o candidato no hospital, a Folha dedica editoriais, análises com especialistas e matérias sobre o ódio na campanha e sobre Bolsonaro. Em 11 de setembro, o DataFolha divulga pesquisa em que Bolsonaro apresente 24% das intenções de voto. Seu nome volta a ganhar força no pleito. A cobertura segue com Bolsonaro como principal personagem. No dia 12 seu estado de saúde piora e a capa do dia seguinte é:

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo / 13 de setembro de 2018.

Apenas como informação, levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas[10] mostra que o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 6 de setembro ampliou em 29% a presença de apoiadores do candidato do PSL nas discussões sobre presidenciáveis no Twitter. Ao mesmo tempo, o episódio fez murchar a relevância de perfis alinhados à esquerda, que caiu 21%, ao lado de perfis anti-Bolsonaro sem orientação política definida, que perderam 4% de seu peso nos debates. No entanto, perfis que se opõem ao ex-capitão continuaram dominando a discussão, com 62% das interações.

Em 15 de setembro, pesquisa DataFolha aponta Bolsonaro com 26%.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 15 de setembro de 2018.

No mesmo dia 17 de setembro, a Folha divulga uma imagem de Bolsonaro no hospital. A manchete era sobre uma transmissão ao vivo que ele havia feito pelo Facebook. A imagem de fragilidade é latente ainda mais quando contrastada com a matéria de Geraldo Alckmin. Na matéria de Bolsonaro não há imagem extraída de um trecho da transmissão, e sim, dele acamado.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 17 de setembro de 2018.

Até quando não fala de Bolsonaro a mídia fala de Bolsonaro. Em 18 de setembro de 2018, mesmo quando as matérias são sobre a candidata Marina Silva, o tema é Bolsonaro.

Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo / 18 de setembro de 2018.

Vale lembrar que mesmo sem tempo de televisão, o atentado à faca priorizou a pauta da mídia nacional. Mesmo quando Bolsonaro não falava, se falava sobre ele. O atentado e suas repercussões foram acompanhados como uma novela. O “Bolsomito” entra na disputa eleitoral como candidato anti-petista, pela primeira vez a direita apresente um candidato que compete com o ex-presidente Lula em simbologia. Para enfatizar mais o tom novelesco da trajetória midiática, o ataque à faca promove o medo nas pessoas. A sobrevivência de Bolsonaro reativa a esperança. As paixões são tema constante da trajetória do candidato no período eleitoral. E, Bolsonaro é acompanhado como personagem de novela. Quando a imprensa o ataca ferozmente, seus defensores e aqueles mais propensos ao seu discurso veem os ataques como violentos demais, legitimando o discurso inflamado do então candidato. Bolsonaro torna-se vítima mais uma vez. Agora, do ataque desmedido da imprensa.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo, 20 de setembro de 2018.

Em 28 de setembro Bolsonaro fala por 45 minutos ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes. No dia seguinte, tem 11 minutos no Jornal Nacional, da Rede Globo. A exposição é maior do que qualquer propaganda eleitoral gratuita poderia garantir.

 

5. Considerações Finais

Especificamente no Brasil, o conservadorismo ganhou destaque após os anos de governo do Partido dos Trabalhadores (2003 – 2016). Vale destacar que esse Congresso conservador é um microcosmo da sociedade brasileira, que encontra em Bolsonaro a representatividade não ocupada por nenhum outro personagem político de direita. Como demonstramos no trabalho, desde 2010 a política brasileira sugeria uma terceira via. O breve destaque nas campanhas de Marina Silva indicava o fim de uma polarização PT x PSDB. Com o Congresso eleito em 2014 como o mais conservador pós-64 a história brasileira dava claros sinais de procurar um representante mais alinhado à direita. Some-se a isso as manifestações anteriores de Junho de 2013, com o posterior impeachment de uma presidente mulher eleita democraticamente à exposição massiva da corrupção pela Operação Lava Jato, deixando no eleitor brasileiro um sentimento de aversão “à tudo que está aí” havia certamente uma cadeira vazia no conservadorismo esperando para ser ocupada.  Essa cadeira foi ocupada por Jair Bolsonaro, que com seu discurso entendeu que uma grande parcela da população dava claros indícios de querer um personagem político com valores voltados ao passado: pátria, família e Deus. A ascenção de um candidato como Bolsonaro pode ser explicada pelo fato de que quando ele clama para si valores do passado ele oferece uma segurança. O passado nós conhecemos. Do futuro não sabemos o que virá. Discutir pautas progressistas como aborto, casamento homoafetivo, transexualidade são assuntos de um futuro que não conhecemos e, portanto, nos trazem insegurança. O passado nós conhecemos e fica mais fácil lidar com ele. Talvez não fosse o episódio da facada a história de Bolsonaro nessas eleições seria diferente. Antes do dia 6 de setembro ele estava estagnado com 20% das intenções de voto, o que seriam seus eleitores fieis. Depois do atentado, não pode ir a debates, mas foi poupado por seus adversários. Sua imagem, que sempre esteve presente nos jornais, ficou mais espetacularizada ainda. A história de Bolsonaro criou uma narrativa digna de novela: o protagonista sofre um atentado, fica entre a vida e a morte gerando expectativa nos eleitores (espectadores), então sobrevive, mas frágil ainda lida com os sonhos (da presidência) e medos de quem sofreu. Tudo aos olhos atentos do público. O espetáculo por si só. A violência utilizada como discurso, reiterada nas imagens e com seu ápice no gestual (atentado) ganha contornos que extrapolam a simples realidade nessa campanha. A batalha de narrativas onde um impõe o discurso no outro é sobrepujada pela própria violência física. Não raras as vezes simpatizantes dos dois candidatos que foram ao segundo turno foram algo de agressões. A violência vira espetáculo. Mais do que imagem. Ela se entorna na campanha não sendo mais possível falar de eleições 2018 sem falar de violência.

O desfecho para Bolsonaro foi ganhando contornos mais espetaculares ainda quando ele permanece 45 minutos  num dos programas de maior audiência da Rede Bandeirantes (Brasil Urgente) e 11 minutos no dia seguinte no Jornal Nacional e um dos maiores líderes evangélicos (Bispo Edir Macedo) declara seu apoio a ele. Tudo isso enquanto ele luta pela vida. As intenções de voto disparam, afinal, exposição em TV aberta fazem com Bolsonaro o que 20 minutos de Horário Eleitoral não fazem com Alckmin.  A superexposição da imagem do candidato aliada à sua história de sobrevivência à violência nas eleições, mesmo que muitas vezes provocada por ele e usada como pauta na sua plataforma eleitoral,  mais a opção como terceira via na política brasileira e o sentimento de antipetismo formam a narrativa perfeita para o desfecho: Bolsonaro é o presidente da República.

 

Referências

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CIOCCARI, D., & PERSICHETTI, S. (2018). A política e o espetáculo em Jair Bolsonaro, João Doria e Nelson Marchezan. Revista Alterjor, 2018(2), 177-200. Recuperado de http://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/147321.

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WEBER, Maria Helena. Consumo de Paixões e Poderes Nacionais : Permanência e hibridação em espetáculos político-midiáticos.RiodeJaneiro:UFRJ/CFCH/EscoladeComunicação,1999.384p.(tesededoutorado) sob orientação de Prof. Dr. Antônio Fausto Neto.

WEBER, Maria Helena. Comunicação e espetáculos da política . Porto Alegre: Ed.Universidade/ UFRGS, 2000.

WEBER, Maria Helena .Imagem Pública. In: RUBIM, Antônio A. C. Comunicação e Política – conceitos e abordagens. Salvador: Edufba, 2004 (p.259 -308).

 

[1]  Disponível em: https://noticias.ne10.uol.com.br/politica/noticia/2014/12/09/nao-te-estupro-porque-voceo-nao-merece-dispara-bolsonaro-contra-deputada-assista-523437.php Acesso em: 19 de setembro de 2018.

[2] A data foi escolhida porque nesse dia foi divulgada a primeira pesquisa eleitoral de 2018. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/04/prisao-enfraquece-lula-e-poe-marina-perto-de-bolsonaro-diz-datafolha.shtml. Acesso em: 11 de julho de 2018.

[3] Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2018/07/31/bolsonaro-roda-viva/ Acesso em: 22 de setembro de 2018.

[4] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=gNJKJLCPrT4  Acesso em: 22 de setembro de 2018.

[5] Esse episódio foi a segunda vez em que Bolsonaro, na condição de deputado, diz que não estuprará Maria do Rosário porque ela não merece. Em novembro de 2003, ele discutiu com ela, que era deputada, diante das câmeras da RedeTV! no Congresso Nacional.  A então deputada acusou Bolsonaro de promover violência, inclusive violência sexual: "O senhor promove sim", dizia a deputada. "Grava aí que agora eu sou estuprador". "Jamais iria estuprar você, porque você não merece", acrescentou.  Diante da fala, Maria do Rosário disse que daria uma bofetada em Bolsonaro se este tentasse algo.

[6] Tese de doutorado: Do PFL ao DEM: uma análise das Bancadas. CIOCCARI, Deysi. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 189 folhas. 2016.

[7] Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/datafolha-apoio-pena-de-morte-no-brasil-sobe-para-57-22264931. Acesso em: 7 de outubro de 2018.

[8] Simonetta Persichetti, manifestação oral em reunião do grupo de pesquisa Comunicação, Cultura e Visualidades, no dia 20 de outubro de 2018, na Faculdade Cásper Líbero.

[9] Disponível em: http://www.revistas.usp.br/alterjor/article/view/147321.

[10] Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/grupo-pro-bolsonaro-ganha-relevancia-no-twitter-apos-facada/  Acesso em: 14 de setembro de 2018.

 

 

Autora

Deysi Cioccari

Doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP, São Paulo.

E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero 42

JUL. / DEZ. 2018 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero

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