Resenhas

Como vemos a violência do Estado

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Resumo

Quando a escritora, curadora, cineasta e teórica da fotografia Ariella Azoulay nasceu, em 1962 na cidade de Tel Aviv, em Israel, o fenômeno da demolição das casas de palestinos por israelenses já ocorria há mais de uma década: estima-se que apenas entre 1948 e 1949 em torno de 100 mil casas foram derrubadas pelo Estado de Israel. Os resultados destas ações — a transformação visual na paisagem da cidade e a criação de campos de refugiados para abrigar quem foi arbitrariamente expulso de sua casa, principalmente — eram assuntos que permeavam a vida da autora, mas que demorou anos para que pudessem ser por ela compreendidos em toda sua complexidade.

Os resultados de uma pesquisa que é feita relacionada a uma vivência pessoal ou uma reflexão sobre o que cerca o autor muitas vezes são surpreendentes. O livro “Imaginação Civil: Uma Ontologia Política da Fotografia”[1], escrito em hebraico por Azoulay, publicado em 2010 pela editora Resling Publishing em Israel e traduzido para o inglês em 2012 por Louise Bethlehem, é um caso deste tipo. O texto é um diálogo entre a autora e Aisha Al-Kurd, mãe palestina moradora de um campo de refugiados para pessoas expulsas de suas casas que teve seu olho atingido por uma bala de borracha e foi fotografada com um de seus cinco filhos, Yassir, pelo fotógrafo italiano Micha Kirshner (1947-2017) em 1988, e, partindo desta ideia, Azoulay faz uma brilhante reflexão acerca da fotografia de pessoas em situação de violência política.

Esta imagem de Kirshner foi criticada tanto pela direita quanto pela esquerda: os direitistas o indagavam o porquê de não fotografar também o sofrimento das pessoas do lado de Israel e a esquerda o acusava de estetizar o sofrimento, fazer uma situação dolorosa parecer bonita. No começo, Azoulay concordava com o pensamento esquerdista, contudo, após reflexão mais aprofundada — cujos resultados foram publicados neste livro — ela percebeu que nesta ideia podia-se conter uma “armadilha”: a partir dela, subentende-se uma oposição entre o estético e o político; a autora defende justamente o contrário.

O argumento central do livro é uma reflexão sobre a categoria “político” — com todas as suas fronteiras e limitações — e a criação de uma outra categoria: o “civil”; a ideia é pensar em um “discurso civil” sob a condição de um regime de violência imposto pelo Estado[2]. Azoulay acredita que, sob tais condições, a ideia de “cidadania” é um privilégio que apenas uma parte das pessoas podem ter e, ainda assim, em graus diferenciados.

O direito central pertencente a este segmento privilegiado da população consiste no direito de ver o desastre — de ser seu espectador. O que está em risco não é a satisfação que está potencialmente atrelado ao ato de ver, mas ao ato em si, que é reservado para o portador de direitos civis a quem é permitido observar o desastre de uma distância relativa, independentemente de o observador participar de uma categoria diferente de habitante do país, isto é, pessoas a quem o desastre foi infligido e aqueles que podem ser vistos subsistindo em seus estados de desastre (AZOULAY, 2015, s/p)[3].

Para a autora, a violência da imagem de Kirshner não está na fotografia per se, mas sim pela violência cometida contra Al-Kurd pelo Estado e por ela manter-se permeável a cidadãos privilegiados que não veem sua condição como desastre. O exemplo de Al-Kurd permeia todo o livro, e todos os exemplos e analogias são feitos pensando no desastre que Azoulay presencia em sua vida desde criança: a invasão e ocupação de casas palestinas pelo governo de Israel. A proximidade do exemplo traz uma riqueza de detalhes impressionante e um aprofundamento teórico denso, o que é nítido ao leitor. Estes estudos de caso tornam, muitas vezes, a leitura palpável e torna a teoria mais simples de ser assimilada.

Todavia, como pode-se pensar em uma forma de discurso civil que seja mais adequada à representação dos regimes de violência impostos pelos Estados? Azoulay afirma que o primeiro passo é não identificar a violência com a população por ela afligida, como, por exemplo, tratam-se os “refugiados palestinos”. Pensar desta forma criticada pela autora tem como consequência olhar o desastre como uma oposição entre governos ou facções e não de forma holística.

Azoulay convida a imaginar. Para ela, a decapitação do rei Luis XVI, na França, é uma forma de imaginação política que ultrapassou barreiras: os cidadãos imaginaram um estado de ser diferente do que prevalecia na época — e o puseram em prática. O livro também fala sobre como a representação, a imagem, pode convidar a imaginar uma situação de outra forma. A ideia principal, contida no título da obra, é a de uma “imaginação civil”, conceito desenvolvido por Azoulay ao longo de todo o livro.

A obra é, inicialmente, pensada como uma teoria da fotografia, o que de fato ela é: a autora faz brilhantes considerações sobre a imagem de pessoas que vivem sob a condição de violência política. Porém, não é só um pensador que estude a imagem fotográfica que pode interessar-se pelo livro: a reflexão nele contida vai muito além. Azoulay nos convida a refletir como vemos o outro e seu sofrimento, como convivemos com os regimes de violência impostos pelos Estados. Para além da imagem, o livro trata de cidadania.

REFERÊNCIAS

AZOULAY, Ariella. Ariella Azoulay. Disponível em: <http://cargocollective.com/AriellaAzoulay>. Acesso em: 09 maio 2019.

AZOULAY, Ariella. Civil Imagination: A Political Ontology of Photography. Londres: Verso, 2015.

DEKEL, Ayelet. Local Testimony 2017: Remembering Micha Kirshner. 2017. Disponível em: <https://www.midnighteast.com/mag/?p=38234>. Acesso em: 07 maio 2019.

[1] Do inglês, “Civil Imagination: A Political Ontology of Photography”. Tradução livre das autoras.

[2] Do inglês, “regime-made disaster”. Tradução livre das autoras.

[3] “The central right pertaining to the privileged segment of the population consists in the right to view disaster — to be its spectator. What is at stake is not the enjoyment that potentially attaches to the act of spectatorship, but the act itself, which is reserved for the privileged bearers of citizens’ rights who are able to observe the disaster from comparative safety, whereas those whom they observe belong to a different category of the governed, that is to say, people who can have disaster inflicted upon them and who can then be viewed subsisting in their state of disaster.” Tradução livre das autoras.

 

Autora

LAURA DUARTE ULIANA

Mestranda em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, Brasil E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 43

JAN. / JUN. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

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