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Fotojornalismo esportivo: imagens de Mulheres paralímpicas em seis capas de jornais brasileiros

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Resumo

From studies on photography and sports photojournalism, gender studies and discourse, we intend to analyze how female athletes were portrayed in six covers of the newspapers O Estado de S. Paulo and Folha de S. Paulo during the Rio 2016 Paralympic Games. The sports photojournalism, our central point of analysis, constitutes a relevant resource of information of the facts involving the sport. This article’s purpose is an analysis of the speech built by the press and photography as the main discursive resource. Keywords: Sports photojournalism; photography; paralympic games; gender studies.

A partir de estudios sobre fotografía y fotoperiodismo deportivo, estudios de género y del discurso, pretendemos analizar cómo las mujeres paratletas fueron retratadas en seis portadas de los periódicos El Estado de São Paulo y Folha de São Paulo durante los Juegos Paralímpicos Río 2016. O fotoperiodismo deportivo se constituye en nuestro punto central de análisis, relevante recurso de información de los hechos que envuelven el deporte. El presente trabajo propone un análisis del discurso construido a través del periodismo impreso y de la fotografía como principal recurso discursivo. Palabras clave: Fotoperiodismo deportivo; fotografía; juegos paraolímpicos; estudios de género.

A partir de estudos sobre fotografia e fotojornalismo esportivo, estudos de gênero e do discurso, pretendemos analisar como as mulheres paratletas foram retratadas em seis capas dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016. O fotojornalismo esportivo se constitui em nosso ponto central de analise, relevante recurso de informação dos fatos que envolvem esse esporte. O presente trabalho propõe uma análise do discurso construído através do jornalismo impresso e da fotografia como principal recurso discursivo.

 

Palavras-chave: fotojornalismo esportivo; fotografia; jogos paraolímpicos; estudos de gênero.

 

A edição dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 aconteceu na cidade do Rio de Janeiro entre os dias 07 e 18 de setembro daquele ano. A partir de conceitos sobre fotografia, gênero e discurso jornalístico, pretendemos discutir a imagem construída pela cobertura de dois jornais, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, no período de 07 a 18 de setembro de 2016, em torno das atletas femininas com deficiência. Verificamos se a construção imagética destaca o esforço e o triunfo através do esporte ou induz a uma dramatização da imagem da mulher com deficiência.  Investigamos os efeitos de sentido gerados pelos enunciados nas capas dos jornais considerando aspectos da composição, a sintaxe entre texto e imagem e o contexto sócio-histórico, exteriores ao enunciado.

Em Discurso das Mídias (2015), Patrick Charaudeau aponta para uma organização e hierarquização da notícia através das exigências de visibilidade, de legibilidade e de inteligibilidade. Critérios que serão observados na análise das seis capas dos jornais Folha e Estadão destacadas a seguir.

A obra de Charaudeau (2015) nos conduzirá nas discussões a respeito da relação entre acontecimento e notícia constituída através do discurso jornalístico e a hierarquização da informação. Pontuamos, portanto, a relevância e a influência de tais discursos nas formas de se colocar as questões de gênero e construir significados sobre a presença da mulher no esporte paralímpico. Como ponto central, o papel do fotojornalismo nas estratégias de encenação nas tramas discursivas da informação. Dessa forma, nossa investigação central é pautada pela discussão em torno da participação dos canais midiáticos na produção de sentido sobre acontecimentos sociais.

Padrões de beleza e saúde podem ser criados e reforçados pelos discursos da publicidade e do jornalismo. Para Michelle Perrot (2003), certos modelos de comportamento podem ser impostos às mulheres. Segundo a autora (2003, p. 14), a "própria beleza constitui um capital simbólico a ser barganhado no casamento ou no galanteio". Perrot (2003, p. 15) destaca que "ainda hoje, o corpo feminino, silencioso e dissecado, continua sendo o principal suporte da publicidade". Nesse contexto, pensando na forma como o corpo feminino pode ser retratado a partir de estereótipos, nos questionamos como se coloca o corpo atlético feminino com deficiência e sobre qual o espaço que lhe é permitido ocupar.

Mas, a despeito dessa condição taxativa e excludente, hoje existem caminhos e passagens que viabilizam outras possibilidades que não seja posicionar os gêneros em condições refratárias, mas de experienciar alternativas que fogem das garras das possibilidades preestabelecidas de discursos marmorizantes sobre o que pode (ou não pode) ser masculino e feminino. (PERROT, 2003, p. 14)

Segundo Perrot (2013), o corpo feminino é comumente conformado a obedecer padrões de comportamento, condutas e posturas. Mulheres são submetidas a estereótipos e padrões de beleza. Buscando a adequação a determinados modelos sociais, o corpo pode sofrer intervenções que imprimem marcas que se tornam visíveis e exteriorizadas na aparência do corpo feminino. Nas palavras de Perrot (2013), esse mesmo processo torna a mulher em imagem. A imprensa em geral ou a esportiva em particular, pode explorar a imagem de atletas femininas como ideal de corpo atlético. Recurso comum em relação a atletas olímpicas. Um exemplo disso é a construção da imagem das musas dos jogos olímpicos.

Nosso trabalho busca contribuir para a discussão acerca do papel da linguagem fotográfica e seu uso no campo da comunicação esportiva. Considera-se a fotografia como objeto difícil de ser questionado, lugar onde diferentes vertentes de estudo buscam delimitar e sistematizar suas análises no sentido de traçar possíveis caminhos metódicos. Ao mesmo tempo, os objetos relacionados ao universo da imagem se abrem a diferentes possibilidades teóricas e metodológicas, diferentes propostas de investigação da mensagem não verbal. Em seu artigo Quando as imagens tocam o real, o filósofo e historiador Georges Didi-Huberman (2012) afirma:

Nunca a imagem se impôs com tanta força em nosso universo estético, técnico, cotidiano, político, histórico. Nunca mostrou tantas verdades tão cruas; nunca, sem dúvida, nos mentiu tanto solicitando nossa credulidade; nunca proliferou tanto e nunca sofreu tanta censura e destruição. Nunca, portanto, — esta impressão se deve sem dúvida ao próprio caráter da situação atual, seu caráter ardente —, a imagem sofreu tantos dilaceramentos, tantas reivindicações contraditórias e tantas rejeições cruzadas, manipulações imorais e execrações moralizantes. (DIDI-HUBERMAN, 2012, p. 209)

Se na modernidade se iniciou certo fetiche em relação a imagens técnicas, hoje esse efeito segue o caminho da ilusão de real. Para Vilém Flusser (1985, p. 34), “a aparente objetividade das imagens técnicas é ilusória, pois na realidade são tão simbólicas quanto o são todas as imagens”. Tais noções podem interferir na relação com a imagem, uma certa noção de um caráter não-simbólico do documento fotográfico, um aspecto ilusório ao se observar a imagem como se fosse uma janela e não uma representação.

 

O esporte paralímpico e a cobertura da imprensa

Em um primeiro momento pensávamos a hipótese de que os dois jornais, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, trariam um maior destaque para os feitos masculinos em suas chamadas de primeira página. Hipótese descartada pela percepção de que foram dedicadas o mesmo número de capas para atletas masculinos e femininos, seis capas em cada jornal.  Como descrito abaixo, são três com imagens de mulheres atletas e três com imagens de atletas masculinos.

 

Distribuição das chamadas com fotos nas capas dos dois jornais

Jornal Folha de São Paulo

Jornal O Estado de São Paulo

Homens 3 Homens 3
Mulheres 3 Mulheres 3
Total 6 Total 6
Total de capas entre os dias 7 e 17  

11

Total de capas entre os dias 7 e 17  

11

 

Feito este apontamento, chamou-nos a atenção outro dado. Constatamos que, apesar de se tratar de um megaevento de alcance internacional, a edição dos Jogos do Rio teve pouco destaque na cobertura das primeiras páginas dos dois jornais, em suas chamadas de capa. Após essa análise inicial, retomamos as nossas questões centrais: verificar de que forma os feitos femininos no esporte paralímpico foram apresentados; investigar o processo de geração de sentido das imagens nas capas dos jornais que retratam as paratltetas; analisar como a mulher atleta com deficiência, segundo o olhar da imprensa esportiva, é inserida no ambiente do esporte.

Segundo dados disponíveis no site das Nações Unidas no Brasil[1], nos Jogos Olímpicos de Paris de 1900 havia 22 mulheres entre 977 atletas que participaram das competições. Apenas em 2012, em Londres, as mulheres estiveram presentes em todas as modalidades. Nas Olimpíadas Rio 2016, foram 159 países participantes, 4.333 atletas, entre 2.663 homens e 1.670 mulheres.

Os Jogos Paralímpicos foram realizados pela primeira vez em 1960, na cidade de Roma, Itália. Anteriormente, em 1948, por iniciativa de Ludwig Guttmann, neurologista alemão de origem judia, ocorreu o primeiro registro da realização de jogos disputados entre atletas com deficiência. Competiram na ocasião militares feridos na Segunda Guerra Mundial.

Os jogos paralímpicos de verão são realizados sempre na sequência dos jogos olímpicos, na mesma sede e utilizando a mesma estrutura para realização das duas competições. Arenas e parques olímpicos devem, portanto, estar adaptados para público e atletas com deficiência. Em 2014, uma iniciativa do Comitê Paralímpico Brasileiro lançava campanha com o objetivo de convocar as torcidas para os Jogos Paralímpicos Rio 2016. A campanha descrevia os feitos do esporte paralímpico.

Mude o impossível, tem como conceito a capacidade dos atletas paralímpicos em transpor barreiras, romper limites e quebrar os paradigmas da sociedade, a nova fase da campanha institucional do CPB traz como tema principal a ideia de que os atletas paralímpicos mudam o impossível todos os dias, desde as atividades do dia a dia, até quando transformam o Brasil em potência paralímpica mundial.[2]

Para David Le Breton (2007, p. 7), “a existência é corporal”.  As ações humanas envolvem a mediação da corporeidade. Diante da presença corporal se processa a comunicação humana. O corpo, com seu peso discursivo, acrescenta e constrói significados no processo de comunicação. Segundo Le Breton (2009), os movimentos e os gestos corporais estão presentes na comunicação humana. “Os inumeráveis movimentos corporais empregados nas interações (gestos, mímicas, posturas, deslocamentos, etc.) enraízam-se na afetividade individual”, destaca Le Breton (2009, p.39). Questionamos-nos como essas características se incorporam às imagens fixas.

 

Elementos para análise

Segundo nos coloca Patrick Charaudeau (2015), a organização dos elementos da linguagem informativa (verbais e visuais) seguem objetivos pontualmente determinados. Retomamos aqui, como critérios a serem pensados, as estratégias de visibilidade, de legibilidade e de inteligibilidade discutidas por Charaudeau (2015). Sobre a legibilidade diz respeito à forma como se relata os fatos, a clareza na elaboração da notícia que, segundo o autor, tem a ver com o entendimento da forma como são apresentadas e organizadas as informações. Já o critério de inteligibilidade estaria no esclarecimento do como e do porquê das notícias, está também relacionado aos outros elementos, se manifesta nos critérios de paginação e pelas formas textuais dos comentários como editoriais, crônicas e análises. Esse critério pode não aparecer na nossa análise por sua relação com textos mais opinativos.

A visibilidade está ligada a maneira de enunciar e apresentar as notícias, critérios de edição como paginação e titulagem. Charaudeau (2015, p. 233) aponta três características da visibilidade: “fática, de tomada de contato com o leitor, epifânica de anúncio da notícia, e sinóptica, de orientação ao percurso visual do leitor no espaço informativo do jornal”. Elementos que serão considerados como critérios de análise.

Convivem na imagem uma cadeia de significados, a polissemia da imagem. Nesse sentido, destacamos a relação de sintaxe entre texto e imagem descrita pelo semiólogo francês Roland Barthes (1990) em Óbvio e Obtuso. Segundo Barthes (1990), a mensagem verbal - o texto - pode induzir a mensagem visual em direção a determinados sentidos. No processo de sintaxe entre texto e imagem, elementos como o texto da legenda podem conformar o olhar e induzi-lo a determinados significados. Ao mesmo tempo em que o texto pode servir de ancoragem para determinado sentido da imagem fotográfica, elementos da mensagem não verbal podem reforçar ou duplicar as informações de um texto, gerando certa redundância. Sob outro aspecto, a mensagem verbal pode acrescentar significados e informações ao documento fotográfico. Fotografias em uma página de jornal não são estruturas isoladas, estão em relação com elementos gráficos e textuais que constroem o discurso da imprensa.

No processo de análise das fotografias propomos a verificação dos processos de conotação da imagem pela perspectiva do paradoxo fotográfico elaborado por Roland Barthes em O óbvio e o obtuso (1990). Barthes (1990) propõe seis possibilidades de observação do processo de conotação da imagem: disposição dos objetos em cena, trucagem, fotogenia, esteticismo, pose e sintaxe. O ângulo é determinante no processo de trucagem na forma como organiza a cena para induzir o sentido da imagem. Na conotação por pose, a leitura é possível pela atuação dos personagens colocados em cena na imagem, sua expressão, seus gestos e postura, por exemplo. A pose também está relacionada com a presença do corpo na imagem. Já os objetos em cena podem ser organizados na imagem visando o processo de indução de sentido.  A fotogenia, segundo Barthes (1990), resulta de um embelezamento da imagem realizado com os recursos disponibilizados pela técnica fotográfica, seus efeitos enquanto linguagem. Também o esteticismo se processa pela construção de uma estética na imagem que se torna indutora de sentido. A sintaxe entre imagens se processa pelo encadeamento de duas ou mais imagens, a proximidade entre as mensagens visuais resultam em um novo sentido para essas imagens.

Segundo o filósofo e estudioso da teoria da imagem Lorenzo Vilches (1992) se estabelece uma relação complexa entre texto e imagem no enunciado de uma capa de jornal.

El modo de estar presente el enunciador en su enunciado (tanto verbal como icónico) repercute diretamente en el proceso de lectura del enunciatário. El modo de esta presencia viene señalada a través de indicadores gramaticales e icónicos. (VILCHES,1992, p. 196)

Vilches (1992) descreve a página de um jornal como sendo uma macroestrutura informativa da qual fazem parte elementos como as fotografias, os textos, o logotipo, os títulos, as legendas, elementos gráficos, o espaço ocupado por cada elemento na diagramação. Todos elementos determinantes do processo de geração de sentido, componentes da expressão periodística. Passamos a investigar o nosso corpus verificando o processo de geração de sentido das imagens nas capas dos jornais que retrataram as mulheres do esporte paralímpico.

A capa do jornal O Estado de S. Paulo do dia 11 de setembro de 2016 traz uma fotografia da atleta Shirlene Coelho que foi medalha de ouro na competição do lançamento de dardo. A chamada destaca: “Brasil ganha 2 ouros“. A fotografia de Shirlene foi recortada, destacando apenas a atleta. O ângulo da imagem é tomado de baixo para cima, em contra-plongée, recortada a partir da altura do peito. No percurso de leitura do enunciado, a fotografia da atleta encontra-se acima do ponto de atenção da composição, o centro da página, espaço destinado aos temas de maior importância hierárquica, maior relevância segundo os critérios editoriais de cada veículo. Nas funções sinópticas e epifânicas, descritas por Charaudeau (2015), considerando o anúncio da notícia e a orientação de leitura das informações, a fotografia de Shirlene ocupa espaço de menor destaque, que pouco privilegia o seu feito, a conquista do ouro paralímpico. O texto se apresenta em maior destaque e conduz a certo sentido para a imagem. No processo de conotação da imagem, a pose e o objeto em cena imprimem um sentido de vitória. O gesto da atleta é de alegria e comemoração reforçado com a presença da bandeira como elemento de nacionalidade.

A capa do Estadão do dia 17 de setembro de 2016 traz sobre a legenda “beijo e vitória”, a fotografia de um beijo de um casal descrito como sendo de canadenses do basquete em cadeira de rodas. Ela em cadeira e ele com próteses. A legenda aqui ajuda a dar sentido à cena através da descrição dos personagens, ainda que não acrescente precisamente suas identidades. No processo de conotação podemos perceber a pose destacada em ângulo e recorte. A presença dos corpos que compõem a cena se destaca para além do encontro, o corpo ciborgue, por exemplo - corpo meio humano e que tem uma parte máquina destacada nas próteses. Também o corpo da mulher em cadeira de rodas que insinua suas possíveis limitações de mobilidade. Há a presença da mulher associada ao homem, ao mesmo tempo, é uma imagem de emoção representada no gesto do beijo. O casal se destaca do fundo e o recorte não permite reconhecer o ambiente como sendo a própria arena esportiva. Aqui o encontro e a ação amorosa tem maior destaque que o esporte. Sobre a visibilidade da imagem em relação aos outros elementos, há um destaque para a fotografia, pelo espaço e posição que ela ocupa, função fática, e sua localização na orientação do percurso de leitura da página do jornal, função epifânica.

Na capa do jornal do dia 18 de setembro de 2016, sob o título “Paralimpíada vira hit entre as crianças“, encontra-se a fotografia de adultos e crianças com as campeãs paralímpicas de bocha Evani Calado e Evelyn Oliveira. O texto destaca a ideia de diminuição do preconceito em relação a pessoas com deficiência e conscientização das crianças sobre o tema. Trata-se do retrato posado de um grupo de pessoas com as duas atletas. Três crianças estão ao lado das atletas Evani e Evelyn. O texto que acompanha a imagem destaca a questão da conscientização, mas pouco fala do esporte em si. Os elementos verbais acrescentam sentido à imagem fotográfica para além de um retrato em pose. Do ponto de vista da composição é uma imagem que pouco se destacaria normalmente em capas de jornais. A forma como as pessoas estão dispostas no espaço da composição, os gestos estereotipados e a mão em primeiro plano conotam uma certa formalidade entre os atores. A palavra “conscientização“ acrescenta um sentido que a imagem por si não traria.

Quanto ao ponto de contato com o leitor, o espaço e a localização da imagem no enunciado, há um valor hierárquico de destaque para a imagem. Ocupando espaço quase central, a imagem apresenta a relação entre público e atletas em uma fotografia com muitos elementos em sua composição. Não há muito espaço para a percepção do cenário e a bandeira do Brasil é um elemento que se destaca. Sob o ponto de vista da composição, a imagem não apresenta relevantes efeitos de sentido. Ainda assim, a sintaxe entre texto e imagem adiciona sentidos, acrescenta status e reposiciona a imagem fotográfica na escala hierárquica da capa do jornal.

Com o título “Rumo ao topo - maior delegação do Brasil em uma Paralimpíada busca inédito ‘top 5’“ a capa do jornal Folha de S. Paulo do dia 7 de setembro de 2016 traz a fotografia de atletas com a Vila Olímpica ao fundo. A imagem é acompanhada da legenda “Atletas que chegam à Vila Paralímpica, na Barra, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, são recebidos com cerimônia“. Duas atletas mulheres em cadeiras de roda estão em destaque no primeiro plano da imagem, mas seus nomes não são informados. O plano aberto revela o cenário, local de registro da imagem. A fotografia é o anúncio da chegada dos atletas na Vila Paralímpica e chamada para o início dos jogos. O ângulo da composição privilegia o primeiro plano – provavelmente com o recurso de uma grande angular - com as atletas em cadeiras de rodas. Pose, objetos e trucagem destacam as proporções das atletas em relação aos outros personagens presentes na imagem.

A imagem fotográfica está em um plano de contato de destaque com o leitor, ainda que em menor distinção que a imagem acima. Também está orientada de forma privilegiada no percurso visual de leitura da página. Com três fotografias compondo o enunciado da página do jornal, há um destaque para a presença de mulheres, ainda que a personagem central das outras imagens esteja no centro do debate político e envolvida em questões polêmicas no cenário nacional. Trata-se de Dilma Roussef, presidente eleita que acabava de sofrer impeachment. São, portanto, imagens de mulheres que concorrem para a geração de sentidos na capa da edição de 7 de setembro de 2016 do jornal Folha de S. Paulo.

A capa da Folha do dia 8 de setembro de 2016 traz a cobertura da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos do Rio. Na primeira página da Folha, a fotografia em destaque traz Amy Purdy, atleta dos Jogos Paralímpicos de Inverno, em um momento de sua performance na cerimônia de abertura no Rio. Durante o período de preparação dos jogos Amy foi destacada pela imprensa como musa das competições. A legenda que acompanha a fotografia descreve a dança da atleta com um braço robótico. É uma composição que apresenta um processo de conotação por fotogenia, onde os elementos entre linhas, cores e formas tornam a imagem atraente, ao mesmo tempo que chama a atenção para a cena. Amy está suspensa pelo braço robótico e a cor de fundo se destaca na página. A atleta tem amputação dos membros inferiores e possui próteses modernas na parte inferior das pernas. A pose é mais um elemento que induz a significados implicados entre mulher e máquina.  É uma imagem que coloca em questão a oposição homem x máquina, também a possibilidade de um corpo tecnológico, o corpo ciborgue. Um retrato da imposição da máquina sobre o homem e sobre seu corpo.

Outras fotografias concorrem para o efeito de sentido do enunciado. Abaixo, dois momentos do desfile de 7 de setembro, do lado esquerdo está o presidente Michel Temer e a esposa Marcela Temer e, ao lado, a fotografia do público em gestos que lembram protesto. Temer e Marcela, como personagens centrais da imagem, tem destaque semelhante ao de Amy, mas a atleta está envolvida no ambiente do espetáculo que é transferido para a imagem em termos de cor, luzes e encenação. É uma fotografia privilegiada segundo aspectos dados pelas funções fática, epifânica e sinóptica. Ou seja, destacado pela tomada de contato com o leitor, tanto pela orientação de leitura quanto pelo espaço ocupado na diagramação.   

Na capa do jornal Folha de S. Paulo do dia 17 de setembro de 2016, a fotografia de Silvania Costa de Oliveira, atleta com deficiência visual, durante a conquista do ouro no salto em distância. A pose entre gesto e expressão imprime o sentido de ação. O registro de um momento congelado e recortado pela imagem fixa. A fotografia ocupa a parte inferior do enunciado da capa de jornal, posição menos privilegiada na hierarquização da informação. A técnica fotográfica também destaca a personagem e sua ação do cenário ao fundo, Silvania é privilegiada pelo foco da lente fotográfica. Há muitos elementos verbais e visuais, entre textos, imagens e elementos gráficos que concorrem no processo de geração de sentido. Vários elementos textuais acima da imagem tornam confusos os dados sobre o momento retratado na imagem fotográfica. Informações limitadas em relação ao feito de Silvania, a conquista de um ouro paralímpico.

Em todas as imagens das atletas paralímpicas a indução de sentido se impõe pela presença do corpo na imagem. Para David Le Breton (2007), como destacamos anteriormente, as ações humanas envolvem processos de mediação corporal. O potencial discursivo do corpo constrói significados no processo de comunicação. O corpo com deficiência provoca inquietações sobre uma ideia de fragilidade da condição física humana e os discursos em torno ao esporte paralímpico podem reforçar tais estereótipos. Os retratos das atletas nas capas dos seis jornais analisados fala pouco sobre os feitos esportivos dessas mulheres. A condição feminina é apresentada - em quatro das seis capas - em função de uma estética atribuída ao corpo, pela condição de pessoa com deficiência e associada a uma figura masculina. O potencial do esporte é representado em dois momentos, na comemoração da conquista de uma medalha e na ação esportiva congelada no registro fotográfico.

 

Discussões finais 

Das 11 edições veiculadas por cada jornal, apenas três trouxeram imagens de mulheres atletas paralímpicas. Ao mesmo tempo, o mesmo número de capas dedicou espaço a atletas masculinos. Enquanto a Folha de S. Paulo apresenta um momento de preparação, um momento da abertura e outro dos jogos em si, na conquista do ouro no salto em distância, O Estado de S. Paulo não traz imagens de mulheres em momentos de competição em suas capas. Apenas Shirlene é retratada numa imagem de celebração, ainda assim, em imagem de pouco destaque.

São mulheres retratadas com pouca visibilidade para seu potencial como atletas. As fotografias em maior destaque são da cerimônia de abertura, a foto do beijo entre dois atletas e momentos de interação externos aos jogos. Se as fotografias não reforçam estereótipos sobre o corpo feminino, também não destacam a ação esportiva dessas mulheres. A atleta Silvania Costa de Oliveira é a única retratada em um momento de disputa.

O momento político do Brasil pode ter sido um fator determinante para se colocar os Jogos Paralímpicos a um lugar de menor destaque no valor hierárquico atribuído às notícias. O país atravessava momento de instabilidade em 2016 com a finalização de um processo de impeachment da presidente e várias denúncias de corrupção no meio político. Tais temas passaram a um lugar de destaque em detrimento de outros assuntos.

Esse espaço pouco expressivo, reservado as imagens do esporte paraolímpico, reforça a nossa percepção de que é preciso oferecer aporte que auxilie nos debates sobre igualdade e diferença. Em um mundo de imagens como o que vivemos, fotografias se impõem na construção de um imaginário sobre os espaços ocupados pela mulher e pela pessoa com deficiência. Camadas de exclusão se sobrepõem também sobre a mulher atleta com deficiência considerando-se alguns fatores: uma tradição de destaque atribuída ao esporte masculino e a questão da mulher ser tratada como minoria por sua falta de representatividade nos centros de decisões de poder. Sobre a questão da mulher ainda se sobrepõe a da pessoa com deficiência que possui menor representatividade nas esferas de decisão.

É preciso, por fim, se considerar que há uma participação decisiva das imagens na comunicação esportiva, consequentemente, na construção dos imaginários a respeito da mulher, do esporte e da pessoa com deficiência. Imagens se impõem no nosso cotidiano construindo sentidos sobre o mundo social, influenciando as nossas relações nas diferentes esferas de interação.

 

Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das Mídias. São Paulo: Contexto, 2015.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. Pós: Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 204 - 219, nov. 2012.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Hucitec, 1985.

LE BRETON, D. As paixões ordinárias: antropologia das emoções. Tradução de Luís Albrto Salton Peretti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

LE BRETON, David. A sociologia do corpo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

PERROT, Michele. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013.

PERROT, Michelle. In O corpo feminino em debate. Org. Maria Izilda Santos de Matos e Rachel Soihet. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

VILCHES, Lorenzo. La lectura de la imagen: prensa, cine, televisión. Barcelona: Paidós, 1992.

 

[1] Cf: <https://nacoesunidas.org/onu-mulheres-participacao-feminina-aumentou-nas-olimpiadas-mas-governanca-ainda-e-masculina/>. Acesso: 13 out. 2016.

[2] Cf: http://www.cpb.org.br/web/guest/campanhas

 

Autores

JOSÉ CARLOS MARQUES

Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, Brasil. Professor no PPGCOM da Unesp.

 

NEIDE MARIA CARLOS

Mestre em Comunicação pela Unesp, Brasil. E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 43

JAN. / JUN. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

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