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Narrativa Jornalística e História Oral: diálogos possíveis na prática noticiosa de Eliane Brum

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Resumo

This paper proposes to reflect on the approximations between Oral History and journalistic narrative, based on the news dynamics of Eliane Brum, specifically in her reports with riverside communities in the north of Brazil, published in the website El País Brasil (2015, 2016, 2017). It promotes articulations between the values assumed by both practices, identifying in the interest of approach and in the interview device a key to such conciliation. Thus, the interviewer-interviewer relationship is discussed in life histories, according to the perspectives of orality and the dialogical encounter in journalism. Keywords: Oral History, journalistic narrative, Eliane Brum, El País Brasil.

Se propone reflexionar sobre aproximaciones entre Historia Oral y narrativa periodística, tomando como base la dinámica noticiosa de Eliane Brum, específicamente en sus reportajes junto a comunidades ribereñas del norte de Brasil, publicadas en el portal El País Brasil (2015, 2016, 2017). Se promueven articulaciones entre los valores asumidos por ambas prácticas, identificando en interés de abordaje y en el dispositivo de la entrevista una clave para tal conciliación. Se discute, así, la relación entrevistador-entrevistado en historias de vida, según las perspectivas de la oralidad y del encuentro dialógico en el periodismo. Palabras clave: Historia Oral, narrativa periodística, Eliane Brum, El País Brasil.

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Propõe-se refletir sobre aproximações entre História Oral e narrativa jornalística, tomando como base a dinâmica noticiosa de Eliane Brum, especificamente em suas reportagens junto a comunidades ribeirinhas do norte do Brasil, publicadas no portal El País Brasil (2015, 2016, 2017). Promove-se articulações entre os valores assumidos por ambas as práticas, identificando no interesse de abordagem e no dispositivo da entrevista uma chave para tal conciliação. Discute-se, assim, a relação entrevistador-entrevistado em histórias de vida, segundo as perspectivas da oralidade e do encontro dialógico no jornalismo.

Palavras-chave: História Oral, narrativa Jornalística, Eliane Brum, El País Brasil.

 

Introdução

As análises apresentadas neste artigo resultam da reflexão sobre a possibilidade de encontros entre História e Comunicação, a partir de uma chave de conciliação entre História Oral e Jornalismo. Tomando o interesse propositivo de abordagem às fontes não-oficiais e o dispositivo da entrevista como elemento de aproximação entre esses dois campos, discute-se perspectivas alternativas à produção jornalística com base nos recursos da História Oral. Com isso, espera-se vislumbrar as contribuições que essa pode oferecer à dinâmica jornalística, na medida em que inova, segundo François (2002, p.04), ao dar atenção especial aos “dominados, aos silenciosos, aos excluídos da história, à história do cotidiano e da vida privada, à história local e enraizada”.

Ao compreender que as abordagens da História Oral dão preferência a uma história vista de baixo, atenta às maneiras de ver e de sentir, às visões subjetivas e aos percursos individuais, torna-se possível assumir ligações e desdobramentos para com a produção noticiosa. Este ponto de convergência é pensado em articulação ao recurso da escuta, a partir da entrevista, assumindo que, assim como para o jornalista, “a arte essencial do historiador oral é a arte de ouvir” (Portelli, 1997, p.22).

Tal acepção se aproxima do “diálogo possível”, proposto por Cremilda Medina (2008, p.08), no qual a entrevista é pensada como uma técnica de interação social que “pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação”. Em Buber (1982, p.09), aprofunda-se ainda mais a reflexão sob a chave do “encontro dialógico”, do qual emanam a reciprocidade e uma abertura do ser “em toda sua totalidade para perceber a palavra que me é dirigida”.

Nesse sentido, a presente investigação interessa-se em discutir proposições e fundamentos para a relação entrevistador-fonte que se norteiem pelos princípios do diálogo e do reconhecimento do Outro, como via de resistência ao dirigismo técnico que se difunde na cultura profissional (Traquina, 2005). Para tanto, elabora-se um percurso metodológico que entrecruza revisão bibliográfica e análise interpretativa, de modo a transitar pelos princípios da História Oral, da Filosofia do Diálogo (Buber, 1982) e da narrativa jornalística, buscando identificar na prática noticiosa de Eliane Brum, aqui denominada como Jornalismo de Desacontecimentos, as interfaces propostas.

Especificamente, debruça-se sobre as reportagens: O ritmo da fome não é o da burocracia (2016) e No fim do mundo de Alice Juruna tem Peppa Pig (2017), desenvolvidas por Brum junto às comunidades ribeirinhas e indígenas do norte do Brasil, no contexto da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, e publicadas no espaço da coluna de Brum no portal El País Brasil.

Ressalta-se que esta pesquisa adota como método o signo da compreensão: assumindo a sua acepção de “abraçar”, busca promover o movimento de abarcar outras disciplinas acadêmicas ao presente estudo, dialogar com formas de saber “para reconhecer tanto sua validade para a construção de conhecimento quanto a necessidade de se ouvir o que essas formas têm a dizer, dada a – irônica? – insuficiência do empirismo para lidar com os fenômenos naturais e sociais” (Künsch et al., 2016, p.09).

Em consonância, Martino (2014, p.29) pondera que a compreensão como método leva em consideração a epistemologia “como espaço da alteridade com o qual se dialoga”, como abertura para reconhecer que, “diante da complexa unidade da realidade, conceitos podem dialogar – afinal, estão falando de recortes diferentes de um mesmo mundo”. O pensamento compreensivo, assim, “opera observando que os discursos teóricos só podem ser entendidos em suas articulações tensionais”: “o diálogo entre saberes implica o reconhecimento compreensivo da alteridade epistemológica” (idem).

 

Articulações iniciais: o interesse pelas fontes não-oficiais

Escreve Lonzano (2002, p.22) que, para os entusiastas, a História Oral surgiu como uma verdade ‘alternativa’ para divulgar a história daqueles que não foram registrados objetivamente nas histórias oficiais, nacionais ou internacionais. Sendo assim, configura-se como “o instrumento e a resposta mais acabada que os intelectuais da história podem oferecer aos setores historicamente explorados”. Isso porque o uso sistemático do testemunho oral possibilita esclarecer trajetórias individuais, eventos e até processos que, por vezes, não tem como ser entendidos ou elucidados de outra forma.

A História Oral lida, neste sentido, com depoimentos de analfabetos, mulheres, crianças, indígenas, prisioneiros, enfim, com histórias de movimentos sociais populares, de lutas cotidianas encobertas ou esquecidas, de versões menosprezadas. Não à toa, uma vertente da História Oral, inclusive, tem sua constituição ligada à história dos excluídos. Trata-se de uma história, tal qual afirma Thompson (1992), construída em torno das pessoas.

Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. Admite heróis vindos não só dentre os líderes, mas dentre a maioria desconhecida do povo. Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Propicia o contato – e, pois, a compreensão – entre classes sociais e entre gerações [...] (Thompson, 1992, p.44).

A história oral, portanto, trabalha com os pontos de vista expressos nas entrevistas, que passam a ser legitimados como fontes e a incorporar elementos e perspectivas muitas vezes ausentes em outras práticas históricas, como a subjetividade ou cotidiano, ressaltando nela “a tradição e a reminiscência, o passado e o presente, o detalhe, a humanidade, frequentemente sua emoção e sempre seu muito desenvolvido ceticismo com relação a todo o empreendimento historiográfico” (Burke, 1992, p.198).

Faz-se interessante destacar, também, a gradativa conformação multidisciplinar da história oral, seja pela inclusão, assimilação ou crítica de temas, métodos e técnicas de trabalho de diversas disciplinas sociais. Queiroz (1991) propõe uma definição:

"História oral" é termo amplo que recobre urna quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por meio de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de um só indivíduo ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade. [...] Dentro do quadro amplo da história oral, a "história de vida" constitui uma espécie ao lado de outras formas de informação também captadas oralmente (Queiroz, 1991, p. 5-6).

A História Oral deve ser pensada, então, como uma metodologia (Amado e Ferraz, 2002) acionada para ouvir e conhecer as narrativas de vida dos entrevistados, seus percursos e sentidos. Para tanto, é preciso que o pesquisador seja “atento às tensões implícitas, aos subentendidos, ao que foi só sugerido” (Bosi, 2004, p.16); realidade essa que só se faz possível pela escuta e pela observação: os principais referenciais da história oral e também os fundamentos da entrevista jornalística, conforme Medina (2008, 2014) e o jornalismo de Eliane Brum.

Ao se interessar pela oralidade, portanto, a história consegue fundamentar análises alternativas com base em fontes inéditas ou novas. Paul Thompson (1992) categoriza três modos pelos quais a História Oral pode ser construída: a narrativa da história de vida – em que o testemunho é a fonte de riqueza e análise -, a história temática – que pode agrupar várias histórias em torno de um tema comum - e a análise cruzada. Em qualquer uma dessas possibilidades, é a entrevista que será o documento sobre o assunto escolhido.

Nesta linha, e assumindo também que “a história oral tem um compromisso radical em favor da mensagem social da história como um todo” (Thompson, 1992, p.26) - na medida em que concede espaço para a manifestação da voz daqueles que geralmente vivem à margem da sociedade - é que se faz um apontamento que permite um diálogo com a produção jornalística.

Uma vez que é da natureza da maior parte dos registros existentes refletir o ponto de vista da autoridade, não é de admirar que o julgamento da história tenha, o mais das vezes, defendido a sabedoria dos poderes existentes. A história oral, ao contrário, torna possível um julgamento muito mais imparcial: as testemunhas podem, agora, ser convocadas também de entre as classes subalternas, os desprivilegiados e os derrotados (Thompson, 1992, p.26).

Esta talvez seja uma das contribuições mais importantes da História Oral ao jornalismo: a ampliação das fontes, o acolhimento da polifonia como um gesto de reconhecimento da voz também dos anônimos, a partir de dispositivos que privilegiam o movimento dialógico na escuta e no encontro com o Outro, no registro da oralidade também no plano da narrativa jornalística – procedimentos que, evidencia-se, são assumidos por Eliane Brum em sua trajetória profissional.

Conforme se depreende das investigações desenvolvidas por Ventura e Abib (2015), a prática jornalística de Eliane Brum, desde o início de sua carreira, como repórter do jornal Zero Hora, no Rio Grande do Sul, caracteriza-se pelo interesse de cobertura noticiosa dos desacontecimentos. Essa acepção enfatiza a escolha jornalística, e também política, de Brum de contar os que estão à margem da sociedade, privilegiando a noticiabilidade dos anônimos: “para mim, as notícias habitam os detalhes, às vezes empoeirados, do cotidiano. A maior parte das histórias reais que conto vem dessa grandeza do pequeno (Brum, 2014, p.105).

No cerne de sua dinâmica produtiva, assim, é possível identificar aspectos de resistência para com os procedimentos convencionais, os quais assinalam sua divergência em relação aos critérios do código de produção dos acontecimentos, de que fala Sodré:

O que chamamos de acontecimento jornalístico é um fato marcado mais determinado para o sistema da informação pública do que outros existentes, tidos como não-marcados para a formação de um conhecimento sobre a cotidianidade urbana. A marcação define a noticiabilidade de um fato por critérios, concebidos como valores adequados ao acontecimento: os valores-notícia (news values). Estes se constituem como tais, não por serem únicos, incomparáveis ou irrepetíveis, mas por determinarem singularmente categorias de organização ou controle dos fluxos (econômicos, sociais, políticos) que atuam no espaço urbano (Sodré, 2009, p.75).

A narrativa de Brum manifesta, deste modo, valores jornalísticos que permitem pensar em um universo de práticas alternativas ao modelo tradicional. Suas produções conferem centralidade à vida comum, tornando protagonistas “os homens e as mulheres que tecem os dias e também o país, mas nem sempre são contados na história” (Brum, 2013, p.13).

Quando me tornei repórter, tentei fazer da minha escrita um espelho amoroso no qual as pessoas cujas histórias eu contava pudessem se enxergar, descobrir-se habitantes do território das possibilidades e viver segundo seus próprios mistérios. Ser contadora de histórias reais é acolher a vida para transformá-la em narrativa da vida. Por isso escolhi buscar os invisíveis, os sem-voz, os esquecidos, os proscritos, os não contados, aqueles à margem da narrativa (Brum, 2014, p.111).

Neste sentido, o jornalismo de Eliane Brum parece insistir, tal qual adverte Maffesoli (1995, p.65), “na nobreza da vida cotidiana”, incorporando esse domínio, outrora um ponto cego, “estranhamente ignorado” (idem), como pauta e destaque em suas abordagens.  Nesses espaços de vivências, onde a vida se desenvolve e se expressa de maneira autêntica, Brum evidencia os encontros e desencontros de pessoas comuns, por entre os quais circula a dinâmica dos sentidos, acionada diante da delicadeza e do brutal, da ordem e do caos. Ao noticiar os desacontecimentos, Brum compreende, assim como Certeau (1994, p.57), que o homem ordinário é o “herói comum”, o “murmúrio das sociedades de todo o tempo”, e que no cotidiano se apreendem “detalhes metonímicos – partes tomadas pelo todo” da sociedade.

Suas produções jornalísticas, portanto, buscam apreender, e narrar, as maneiras pelas quais o homem comum “escapa” às conformações prescritas pela denominada “razão técnica”, nas palavras de Certeau (1994, p.13). Reconhecem, então, a criatividade ordinária, pela qual “cada um inventa para si mesmo uma maneira própria de caminhar pela floresta dos produtos impostos”.

Pela escolha de fontes não-oficiais, no registro histórico e jornalístico, é possível pensar em uma primeira chave de conciliação entre as vias da oralidade e do desacontecimento, respectivamente. Buscando nas esquinas menos visíveis versões alternativas e complementares aos relatos tradicionais, a documentação de histórias e narrativas de vida amplia discursos e destaca as vozes que, embora partícipes dos embates sociais, nem sempre são escutadas. Por essas vidas, o acontecimento se expande, para além do registro factual, no registro simbólico e afetivo do mundo:

Quer dizer, não se põe em jogo apenas a lógica argumentativa das causas, mas principalmente o sensível de uma situação, com sua irradiação junto aos sujeitos e a revelação intuitiva do real que daí poderá advir. Assim, em vez de mera transmissão de um conteúdo factual, se trata da conformação socialmente estética de uma atitude. Por um lado, se pode sugerir que a vida acontece também, para além da dimensão discursiva, na movimentação dos corpos, nos embates coletivos e em signos indiciais, em que mais vigora a potência afetiva dos grupos (Sodré, 2009, p.68).

Na tessitura de personagens e histórias de vida, acrescenta Medina (2014, p.44), os poros da sensibilidade se abrem “para que os impulsos afetuosos da não razão sacudam a irracionalidade ou a razão arrogante”.  Rompe, assim, com o “método do questionário em entrevista, com a pré-pauta estabelecida e o resultados previsíveis” (Medina, 2014, p.43), ao experimentar a interação humana criadora, o encontro dialógico que permite apreender, nos enredos do caos da História, os detalhes e percursos de luta dos sujeitos.

Nesta linha, propõe-se desdobrar essa articulação inicial entre os dois campos a partir de uma reflexão sobre a técnica da entrevista. A dinâmica noticiosa de Brum, tal qual o método da história oral, aciona dispositivos que valoram a escuta, a observação e o diálogo como recursos para se alcançar o Outro. Discute-se, então, ademais das escolhas e interesses de abordagem comuns, a entrevista como segundo aspecto de aproximação e de via alternativa à lógica tradicional, como um caminho para manifestar, no plano do registro, o mundo para além do visível imediato.

Instigando aproximações: a conciliação pelo horizonte dialógico da entrevista

A dinâmica produtiva dos desacontecimentos, tal qual a documentação da oralidade, opera segundo dispositivos que realçam o protagonismo da voz do Outro, a disposição para a escuta e a abertura de sentidos para o reconhecimento de sua centralidade no registro da história – seja ela jornalística ou não. Thompson (1992, p.43) afirma que, para uma boa entrevista, “a exigência essencial é o respeito mútuo. Uma atitude superior, dominadora, não contribui de modo algum. O historiador oral tem que ser um bom ouvinte”. E é justamente essa a face da entrevista ressaltada por Medina.

A proposta da autora é que se pense a entrevista, em suas diferentes aplicações, como um dispositivo para a interação social, em que se resgate a presença do sujeito e em que se abram canais para a compreensão intersubjetiva. Essa perspectiva está diretamente relacionada ao horizonte dialógico destacado por Buber (1982). O filósofo, ao discutir o encontro entre sujeitos, reflete sobre o movimento básico dialógico, a interação entre o Eu e o Tu, que consiste em um “voltar-se-para-o-outro”. A essa relação, o autor também se refere como encontro genuíno: “onde a conversação se realiza em sua essência, entre parceiros que verdadeiramente voltaram-se um-para-o-outro, que se expressam com franqueza, produz-se uma memorável e comum fecundidade” (Buber, 1982, p.154-155).

Sob o signo relacional, pondera Medina (2014, p.76), produz-se “um laço profundo entre os sujeitos da relação e uma inesperada interação em que ambos se alteram”. Da mesma forma, Thompson (1992, p.44) pensa que “a relação entre a história e a comunidade não deve ter mão única em qualquer dos dois sentidos: antes, porém, deve ser uma série de trocas, uma dialética”.  Também no pensamento de David Bohm (2005, p.66) é possível evidenciar o diálogo como lugar de compartilhamento. Por intermédio do encontro, escreve o autor, um fluxo de novas perspectivas pode emergir, criando “um significado que é de todos [...] uma consciência comum, que nem por isso excluiria as consciências individuais”.

Concebida assim, a entrevista pode servir à pluralização de discursos no espaço da construção democrática, via narrativas de vida jornalísticas, tal qual o recurso oral na abordagem histórica. Verifica-se, então, nesta chave de conciliação, outra contribuição entre as áreas: o resgate do protagonismo social dos anônimos, através de uma metodologia interessada no reconhecimento intersubjetivo promovido pelo diálogo e pela escuta. Nesse sentido, os valores jornalísticos de Brum parecem bem exemplificar a proposta aqui discutida. Assumindo-se como escutadeira, Brum empreende o movimento “radical” da reportagem, de “desabitar-se de si para habitar o outro, o mundo que é o outro” (Brum, 2017, p.364), que só se completa pela escuta.

Esse processo, que se matiza pelo estímulo à abertura, versa ainda sobre os aspectos ressaltados por Thompson (1992, p.254): “o interesse e respeito pelos outros como pessoas e flexibilidade nas reações em relação a eles; capacidade de demonstrar compreensão e simpatia pela opinião deles; e, acima de tudo, disposição para ficar calado e escutar”. Adiante, apresentamos o estudo de duas reportagens de Brum nesta perspectiva.

Narrativas de vida e História Oral: interfaces no Jornalismo de Desacontecimentos

Uma vez compreendida como repórter desvinculada do circulo midiático tradicional, as escolhas de assuntos para as reportagens de Eliane Brum em nenhum aspecto assemelham-se a outras. Resistindo ao lugar-comum da pauta, a assuntos e personagens que estão nas agendas das redações, Eliane reconhece, no mundo recluso pela emergência da notícia, o valor das histórias de gente comum. Também na natureza intrínseca da História Oral, segundo Thompson (1992, p.41), “a abordagem consiste em tratar de vidas individuais – e todas as vidas são interessantes”.

Como caminhos alternativos às dinâmicas tradicionais, em ambas é possível destacar a abertura de novas perspectivas ao “recuperar a experiência e os pontos de vista daqueles que normalmente permanecem invisíveis na documentação convencional e de considerar seriamente essas fontes como evidência” (Thomson et al.,2002, p.75). Assim, para os dois campos, esse ângulo diferente de visão proporcionou uma ampliação em seus próprios processos, tanto de produção noticiosa, quanto de reconceber perguntas e respostas históricas.

Com o intuito de ilustrar esse estudo, debruça-se sobre o trabalho jornalístico de Brum junto à população indígena e ribeirinha do norte do Brasil. Relatos sobre essas comunidades são recorrentes na prática de Brum, presentes tanto em suas reportagens como, mais recentemente, em suas colunas de opinião. Ao aprofundar suas andanças nas regiões amazonônicas de Altamira e Terra do Meio, no rio Xingu e seus afluentes, Brum busca “alcançar aqueles homens e mulheres que definem seu corpo, seu contorno e sua linguagem na relação com o rio” (Brum, 2017, p.365).

Em O ritmo da fome não é o da burocracia, publicado em novembro de 2016, no El País Brasil, a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte é pautada pela narrativa de vida das comunidades locais. O texto registra as vozes dos ribeirinhos em uma audiência pública realizada em Altamira, naquele ano, para garantir os direitos dessas populações diante das remoções. Pelo reconhecimento da centralidade dessas fontes na compreensão de tal realidade, Brum documenta a história dos que perderam seu modo de vida às margens do Xingu, devido às barragens do rio, como manifesto pelo testemunho de Maria Francineide Ferreira dos Santos: “‘Vocês sabem ler e escrever, eu não sei. Mas eu sei falar. E eu quero os meus direitos [...] O que mais querem que eu peça pra vocês? Esmola? Eu não sou mendiga! Eu sou ribeirinha, eu sou pescadora. [...] Me perdoem, mas é meu grito de socorro!’” (Brum, 2016).

Maria Francineide faz na sua fala essa outra divisão: aqueles que dominam a palavra escrita e aqueles que contam com a palavra oral. Ela deixa explícito em qual palavra está o poder de decidir sobre os destinos. Aqueles que, como ela, contam a vida pela oralidade, com muita frequência não são contados na escrita. Sem ser contados, não contam. Quando o governo federal decidiu construir Belo Monte, eles não foram sequer ouvidos. Sem estar na letra, era como se não existissem. Maria Francineide não lê nem escreve, mas sabe do que fala (Brum, 2016).

No plano da linguagem, e pelo interesse de Brum em narrar a polifonia no contexto de Belo Monte, o Jornalismo de Desacontecimentos resgata protagonismo dos discursos dos anônimos, fazendo de sua reportagem um espaço para a manifestação de suas indignações e sentidos, como na fala do ribeirinho Gilmar da Silva Gomes: “‘Hoje eu não consigo sustentar a minha família com a pesca. [...] Sabem o que é o Xingu pra nós? É o nosso banco, é a nossa vida. Como puderam botar fogo nas nossas casas sem nem pagar indenização?’” (Brum, 2016).

Ao se envolver em realidades cujas implicações diárias foram pouco abordadas pela cobertura noticiosa convencional, Brum parece apreender a “grande angústia” da qual fala Buber (1987, p.104), quando escreve sobre a ruptura do vínculo legítimo entre indivíduo e seu meio: “a história de um homem que foi excluído de um contexto social que lhe era familiar, [...] e, agora, sobrevém à dúvida de tal existência em descobrir o caminho certo sem voltar-se para trás”.

A violência do processo provocou adoecimentos e misérias em grande escala na região de Altamira. [...] Se já tinha sido possível expulsar os ribeirinhos do território em que viviam, tornou-se possível expulsá-los também do território de si, ao dizer que não são o que são. [...] Movidos pelo desespero e pela fome, os ribeirinhos não reconhecidos como ribeirinhos passaram a voltar ao rio do jeito que conseguem. Colocam uma lona, abrem uma clareira de roça, agarram-se à terra (Brum, 2016).

Conciliada à sensibilidade de Brum na observação e na escuta, a escrita dos desacontecimentos expressa a reciprocidade e a confirmação mútua advinda do encontro dialógico entre entrevistador-entrevistado. Interessando-se pelos que estão à margem, procura destacar e centrar, tal qual diz Lozano (1998, p.16) sobre a história oral, sua abordagem na “visão e versão que dimanam do interior e do mais profundo da experiência dos atores sociais”.

Tratando ainda dos impactados por Belo Monte, Brum narra Muratu, a aldeia dos Juruna, na Volta Grande do Xingu, onde sua canoa encontrou crianças indígenas que saltavam de um barranco para o rio, “numa alegria que há muito não via em crianças urbanas”. Pelo texto No fim do mundo de Alice Juruna tem Peppa Pig, publicado em abril de 2017, no El País Brasil, Brum busca materializar o conceito, “que parece sempre abstrato, coisa de antropólogo”, de etnocídio. Com a reportagem, intenta “contar como um jeito de ser e de estar no mundo morre” (Brum, 2017a), assim abordando a vida dos meninos e meninas indígenas como um antes e um depois da construção da usina hidrelétrica:

A paisagem das crianças da aldeia Muratu hoje é uma tela de TV. [...] É nesta troca de paisagem que a morte de uma forma de vida pode ser melhor compreendida. As crianças Juruna vivem no coração da floresta amazônica, à beira de um dos rios mais fabulosos do Brasil, ocupado comprovadamente por seus antepassados há séculos. Mas não têm acesso à água, porque o rio mudou, os peixes apodrecem, quem ali se banha tem coceira no corpo. Os pequenos Juruna não têm rio, não têm floresta, não têm peixe e há grandes chances de não terem futuro. Mas as crianças Juruna têm Peppa Pig (Brum, 2017a).

Empenha-se, neste sentido, tal qual aponta Cruiskshank (2002, p.150) no âmbito da história oral, em promover uma cobertura complexa acerca dos desdobramentos das barragens dos rios no extermínio do modo de vida dos habitantes locais: “os povos indígenas vêm cada vez mais exigindo que suas tradições orais sejam levadas a sério como visões legitimas da historia”.  Retratando as mudanças no cotidiano de Bel Juruna, seus filhos Maykawa, Alice e Juliana, e seus irmãos Gilliard e Jailson, empreende também uma denúncia às alterações culturais, ambientais e sociais produzidas pela obra:

Antes de Belo Monte, a roça dos Juruna era pequena, apenas para produzir a farinha para comer com o peixe. Agora, como o peixe está escasso, os Juruna confrontam-se com a imposição de plantar roças maiores. Eles, que por séculos foram pescadores, têm que se tornar agricultores na marra. Mudanças que levariam gerações são impostas num período curtíssimo. Como avaliar um impacto desta enormidade sobre um povo tradicional [...] cujo próprio dizer de si contém o rio, quando o rio que sempre foi vida se torna uma ameaça de morte? (Brum, 2017a).

O jornalismo de Brum transparece, assim, o testemunho de personagens que vivem, no dia-a-dia, as implicações da problemática em questão. Seu trato narrativo dá mostras de sua fidelidade com a linguagem e o legado oral dos envolvidos, marcas que emergem da interação dialógica entrevistador-entrevistado no plano das entrevistas. Por meio de uma postura compreensiva e dialógica, as reportagens de Eliane Brum acolhem as vozes daqueles que foram retirados de sua cultura e de seu meio, devolvendo-lhes um lugar de fala que jamais tiveram.

 

Considerações

Sob uma chave propositiva, este estudo fundamenta-se na possibilidade de articulação entre História e Jornalismo, especificamente pelas vias da oralidade e dos desacontecimentos. Pensa-se nesse encontro a partir dos dispositivos de abordagem e aproximação ao Outro assumidos nesses campos. Acredita-se que o interesse por fontes não-oficiais e a utilização do recurso da entrevista como interação dialógica entrelaça ambas as práticas e faz emergir, em cada área, dinâmicas produtivas alternativas aos modelos e procedimentos tradicionais. Pelo resgate do cotidiano, a partir da capacidade da escuta, destaca-se a apreensão do singular de cada vida e também evidencia-se os detalhes comuns que significam a pertença coletiva.

Essa capacidade de conexão entre o singular e o universal, segundo Muller (1992), caracteriza a ‘narrativa densa’ e deve ser a busca da História Oral e o verdadeiro sentido da narrativa histórica. Ele cita Burke (1992, p.77) para afirmar que “mesmo o contar a ‘estória’ sobre acontecimentos da vida cotidiana pode e deve revelar conflitos latentes e, dessa forma, iluminar as estruturas sociais [...] estabelecer a ligação entre a micro e a macro-história”. Neste sentido, Thompson (1992, p.28) considera que a principal contribuição da história oral reside justamente nisso: “amplia e enriquece o próprio campo de ação da produção histórica; e, ao mesmo tempo, sua mensagem social se modifica. Para ser claro, a história se torna mais democrática”.

Na perspectiva dos desacontecimentos, também Brum busca expandir o alcance das vozes e colaborar para promover a justiça, contando a história dos anônimos como uma via alternativa aos holofotes midiáticos, uma forma de registro das demandas de uma parcela da sociedade geralmente desconsiderada pela pauta da grande mídia: “eu escolhi contar e incluir, na narrativa, os que estavam à margem [...] eu sou uma escutadeira, são tantos e tantos universos, eu me movimento por causa disso” (Brum, 2014, informação verbal).

Em última instância, o que se defende neste trabalho é a capacidade compreensiva de apreensão do Outro na narrativa, seja ela histórica ou jornalística. Ressalta-se, por fim, que as narrativas de vida, particularmente das comunidades indígenas e ribeirinhas aqui analisadas, configuram-se como registro de testemunho e documentação do tempo presente, conforme pontua Brum (2017, p.14): “acredito na reportagem como documento da história cotidiana, como vida contada, como testemunho”.

 

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Autores

MAURO DE SOUZA VENTURA

Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).

Professor do PPGCOM Unesp.

E-mail: [email protected]

 

TAYANE AIDAR ABIB

Doutoranda em Comunicação na Unesp, Brasil.

Mestre em Comunicação pela Unesp.

E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 44

JUL. / DEZ. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

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