Resenhas

Televisão: Resultado de normas e fenômenos sociais

editor

  • Português

Resumo

Imagem: Divulgação

Resenha de: WILLIAMS, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural. São Paulo: Boitempo; Belo Horizonte: Puc Minas, 2016.

 

A obra de Williams - destinada a desbravar o surgimento da televisão como fenômeno de um novo contexto, ao mesmo tempo, tecnológico e sociocultural traz a dimensão de como a discussão acerca da inserção de recursos tecnológicos em um ambiente social é antiga, o que muda são as naturezas e essências de novos inventos, engendrando formas culturais da época em questão. O autor do prefácio à edição brasileira, Graeme Turner, caracteriza o ideário de conceitos deixado pelo livro como ainda válido diante das transformações na sociedade atual, em que a ascensão e expansão dos suportes tecnológicos são cada vez maiores, relacionando-se com as práticas culturais. Turner segue a linha de Williams, denotando o fomento do recurso tecnológico como efeito de uma nova ordem social, em que as demandas das relações cotidianas requerem um maior montante de mecanismos disponíveis, abrindo espaço para descobertas científicas cada vez mais presentes.

No que tange à televisão, Williams faz uso de preceitos históricos e contextuais para justificar a necessidade e o suporte por onde discorre a nova invenção, ou seja, uma caracterização antropológica do aparelho televisivo e de suas interações. Nesse sentido, é fundamental situar-se os processos de comunicações e meios vigentes e como se compuseram elementos que ratificassem a necessidade de uma plataforma não apenas de comunicação, mas com atributos culturais, de entretenimento, de interação e aptidão familiar como a televisão.

A sociedade da época atravessava um período de pós-revolução industrial, já passando da metade do século XX, em que o mercado de consumo despertava níveis de ascensão, norteando assim, as práticas de relações entre indivíduos e fortalecendo as opções culturais dentro da esfera de lazer e entretenimento. Produtos desenvolvidos sob as lógicas imagéticas como o cinema e a fotografia já eram realidade. Dessa forma, o conhecimento técnico sobre tecnologias da imagem trazia suporte científico e metodológico para a exploração e a implementação de um novo meio de comunicação popular como a televisão. No entanto, o ponto considerado indispensável para o surgimento desse novo intento, segundo a lógica de Williams, são as demandas da época – de ordem social e econômica – por um meio que trouxesse novos incrementos de consumo aos indivíduos, tanto em práticas culturais capazes de absorver a realidade por uso da imagem e do entretenimento, quanto pelo perfil técnico e cultural da nova plataforma, atrelado a uma comunicação privada e instantânea, advinda do aparelho receptor televisivo, adaptada a uma transmissão de fluxo, diferente da dinâmica dos jornais e revistas impressos.

Williamsenfatiza a comunicação televisiva como uma experiência identificada com os lares, adquirindo, assim, o caráter privado e individual familiar, recorrendo a esse hábito como um fenômeno cultural e atrelado a princípios da revolução industrial e do próprio sistema capitalista, já consolidado e moldado pelo imperialismo norte-americano do período pós-guerras. Deste modo, convém a ideia de que as experiências na recepção televisiva possuem contornos singulares e personalizados – por isso a ideia de “prática privatizada no lar” de acordo com a estrutura simbólica dos sujeitos receptores, considerando também a diversidade de atribuições sociais, culturais e políticas que a própria televisão admitia como meio de comunicação. Nesse sentido, faz-se um questionamento à visão de veículo de massa, de modo que as próprias origens histórico-sociais do advento da televisão materializada apontam para uma perspectiva personalista e bem alinhada com a recepção doméstica localizada nos lares e o entorno comunitário em que estão inseridos.

Quando se fala na consideração de práticas e valores cotidianos na relação com a recepção comunicacional e, consequentemente, televisiva, conforme os estudos culturais, é importante salientar para as diversas formas culturais e de conteúdo como combinações possíveis, descritas por Williams, ao sedimentar uma experiência televisiva. Nesse cenário, diante das diversas possibilidades oferecidas pela própria lógica de produção capitalista, e que começa a ser direcionada também aos parâmetros televisivos, a percepção e seleção individual de produtos mesclados e instituídos em uma audiência televisiva por parte do sujeito receptor tornam-se etapa central na consolidação do processo de consumo e, especialmente, na produção de sentido que essa experiência cotidiana em torno da televisão vá produzir.

Esse entendimento condiz com o princípio de fluxo televisivo teorizado e descrito por Williams, no sentido em que o próprio receptor molda sua composição de produtos e categorias de conteúdos televisivos numa lógica ininterrupta, considerando a dinâmica de escolha de fragmentos de programas televisivos e troca de canais disponíveis imediatamente. Esse perfil de recepção está propriamente afinado com a natureza da produção, baseando-se em um fluxo seqüencial e com possibilidade de ser interrompido, o que qualifica esse enfoque privado e doméstico do novo meio.

A variedade de programação corresponde não apenas a uma mescla de gêneros jornalísticos, mas, unificada, dá ênfase a uma prática cultural, no sentido em que aloca as categorias de preferência do receptor, dando ênfase a uma experiência de multidimensões no consumo comunicacional, mas que, especificamente, corresponde a uma exemplificação do cotidiano nos lares modernos.

Deste modo, Williams diferencia as múltiplas faces da experiência televisiva, caracterizando-as desde formas comerciais e publicitárias, até notícias e documentários, assim como produtos de entretenimento como novelas e seriados. São diferentes espécies de materiais de consumo e mensagens de comunicação, tendo sua essência amplificada e adaptada aos desafios e vivências do cotidiano familiar. Contudo, não são apenas de origem cultural, agregam-se e complementam o valor simbólico do ambiente pessoal, seguindo os parâmetros das mediações de Martín Barbero, que relacionam-se diretamente com a faceta codificada empregada na mensagem televisiva. Em outras palavras, origem social, capital intelectual, hábitos e experiências diárias, diversidades geográficas, nível etário e crenças religiosas e de tradição familiar relativizam o modo como esse fluxo é constituído e personalizado em cada ambiente que abriga o aparelho receptor, assim como, delimitam toda a modalidade de aceitação e absorção de valores simbólicos mediante a personalizada grade de programação a que cada sujeito adere em seu domicílio.

Voltando ao contexto inicial, essa realidade engajada na percepção seletiva e pessoal, não deixa de estar conectada com uma dinâmica de consumo voltada para a produção em massa e já também introduzindo nichos de mercado - o que seria mais intensificado no final do século XX. A sociedade industrial requer consumidores em larga escala para manter-se viável e capitalizada, especialmente, na indústria do entretenimento, um dos grandes pilares da sustentabilidade televisiva.

Por isso, Williams constrói o entendimento de que esse cenário histórico, econômico e social de abundância produtiva, e também em que os indivíduos já apresentam seletividade e parâmetros distintos na recepção comunicacional para adaptarem seus hábitos de relação com o meio a experiências pessoais,fomenta a perspectiva da necessidade de um invento complexo que agregue esses contornos cotidianos na relação com a sociedade industrial. Seria, ao mesmo tempo, uma descoberta que facilitaria a cadeia produtiva e de consumo já desenvolvida, e que, por outro lado, produziria sentido, diversificando e ampliando cada vez mais aparatos culturais. Deste modo, estavam postos todos os ingredientes necessários para a materialização da televisão como instrumento que abrangesse todas as áreas das relações cotidianas, sejam de consumo, conhecimento ou comunicação. A partir daí, demandava-se o engajamento tecnológico na descoberta de um suporte que atendesse essas demandas, e não ao contrário como costuma discutir-se em senso comum. Por isso, nas relações de causa e efeito tão debatidas historicamente a respeito das invenções tecnológicas, a proposta de Williams torna aparente uma visão de que as tecnologias são dadas como efeito de uma ordem social e sua causa são os fatores que estabeleceram esse novo contexto, como, por exemplo, as demandas de produção e consumo em escala industrial e, também, o engajamento seletivo e singular dos indivíduos a distintas experiências cotidianas que espelhem a realidade.

Como reflexo desse período descrito por Williams, efetiva-se como ponto central dessa discussão, a nova ordem cultural que se estabelece, obedecendo à ótica do consumo e, mais do que isso, aos novos comportamentos vivenciais da sociedade, oriundos desse alargamento das condições produtivas e que atribui novos valores ao meio social, especialmente, ligados ao capital, com visões de mundo e condutas cotidianas estando relacionadas a esse movimento. A comunicação privada, e com maior gama de alternativas e formato de mensagens a serem consumidas, com o objetivo de desenvolver experiências satisfatórias e agregadoras ao cotidiano racional e agitado da modernidade do século XX, é uma das práticas que ilustra a perspectiva de como a vida passava a ser contemporizada nesse período. Observando essa mesma constatação de Williams, a despeito da ordem cultural, social e econômica, outras correntes de pensamento, como a indústria cultura, desenvolvem caminhos semelhantes na abordagem do mundo moderno e suas significações, com o alargamento de demandas e necessidades preenchidas e centralizadas no consumo, redirecionando a comunicação com uma formalização de produto, reduzindo o dilema moral de seus princípios.

Essa análise interpretativa de Williams é um procedimento primordial na compreensão da televisão e seus formatos, que tornam a modificar-se com o tempo e segmentar-se ainda mais, mas também um suporte válido ao entender a relação entre tecnologia e desenvolvimento histórico, demonstrando como uma transforma e dá vazão à outra.

 

Autor

MARCELO BERNARDES FARINA
Doutorando em Comunicação pela PUCRS, Brasil
E-mail: [email protected]

editor

Prof. Dr. Marcelo Santos - Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012). Profa. Dra. Simonetta - Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP (2001).

Informações do artigo
Líbero Edição 44

JUL. / DEZ. 2019 | ISSN: 2525-3166 | Revista do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero

Leia mais